
Terreiro Roça do Aventura: onde as memórias repousam
Ao atravessar a entrada do Terreiro Roça do Aventura, é o sol quem nos acolhe.
Sua luz, pousada sobre o alinhamento do espaço, desenha Aido Hwedo, a serpente mítica da cosmogonia vodum, aquela que sustenta o mundo em seu corpo enroscado. É como se esse signo nos dissesse “bem-vindas”, a nós, africanas sobreviventes do continente, que ainda caminhamos com as memórias amputadas e as feridas abertas.
Aqui, tudo respira fidelidade à África mítica. A disposição das divindades — Sogbo, Legba, Ogun, Xangô, Agbé, Avlékété… — não é fruto do acaso: ela responde aos relatos transmitidos por nossos ancestrais, tal como viviam na África pré-colonial. Pensávamos que essas narrativas haviam sido engolidas pela história, desaparecidas no estrondo das guerras, das razias e da colonização. Mas no Roça do Aventura, elas retomam corpo. Elas vivem.
Este lugar não é apenas um espaço de memória. Ele é um refúgio — refúgio das memórias, refúgio dos corpos, refúgio das almas cansadas… A cenografia aqui não decora: ela cura, ela trata, ela consola os espíritos de nossos ancestrais. Os cantos não animam: eles apaziguam. As plantas — espécies terapêuticas — e os cursos d’água não apenas perfumam: eles curam. E, nesse processo, são as próprias memórias que são tratadas.
O que mais impressiona é que certas divindades ainda vivas aqui já não são visíveis hoje no Benim. Isso comove, isso questiona, isso revela uma verdade que muitas vezes esquecemos: na travessia do Atlântico, nossos ancestrais perderam, sim, mas também conservaram. O que parecia apagado do continente encontrou refúgio no Brasil e hoje retorna a nós como um arquivo vivo. É o que chamamos de refluxo — o retorno, pelas margens atlânticas, de elementos de nossa cosmogonia que julgávamos para sempre desaparecidos.
É por isso que o Terreiro Roça do Aventura é essencial. Para nós, mulheres Mahi de Savalou e além, ele não é apenas um santuário: é um abrigo contra a amnésia. É o lugar onde podemos, enfim, preencher nossos vazios de memória. Nesse espaço, a África já não está amputada: ela respira inteira, com suas divindades, suas terapêuticas, seus saberes. Ela se torna novamente tangível.
No momento em que falamos tanto de restituição de obras e de arquivos, é necessário lembrar que alguns arquivos não são nem objetos nem papéis: são encarnados. O Terreiro Roça do Aventura é um deles. Um arquivo frágil, mas vivo. Um arquivo que respira, que dança, que canta.
É por isso que devemos preservá-lo. Porque preservar esse lugar é preservar um fragmento da própria África. É reconhecer que nossa memória, mesmo quebrada, encontrou refúgios e abrigos. E que esses refúgios, hoje, precisamos proteger com respeito e gratidão.
O Roça do Aventura não pertence apenas a Cachoeira, nem somente ao Brasil. Ele pertence a todos e todas que buscam reencontrar a África — a dignidade dos ancestrais, a energia de um mundo que se recusa a desaparecer.
Aqui se ergue o santuário de uma África nova: uma África que não renuncia a seus deuses, que recusa o apagamento e que, na memória reencontrada, descobre uma promessa de renascimento.
Do nu mi!!!!!!
Noudéou Lylly Houngnihin
Historienne de l’art
Co-curatrice de la biennale Ouidah, arts et cultures vodun
Experte en articulation et mise en œuvre de politiques publiques ICC
Metteur en scène – Commissaire d’exposition
08BP 1006 Cotonou, Bénin
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