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Folhagem de repente: quando a memória vira corpo
AZD (Andressa Lima Batista)
Magdiel Ferreira é um artista que trabalha a partir do corpo como lugar de memória. Sua pesquisa atravessa performance, imagem e processos de criação que partem de experiências pessoais ligadas ao território, à infância e às culturas tradicionais do Recôncavo Baiano. Em seus trabalhos, o corpo não aparece apenas como presença física, mas como espaço onde lembranças, ausências e continuidades se tornam visíveis.
É desse lugar que nasce Repente, o tombo do folhagem, experimento cênico-performático registrado em primeiro momento numa lagoa de Mandacaru, bairro periférico de Jequié; e vivenciado novamente na II Ocupação Casa do Benin — Ecos da Diáspora, no dia 30 de agosto de 2025. A aparição pública dessa figura que se cobre de folhas e se movimenta como se carregasse um tempo que não é apenas o presente. O trabalho surge como um processo em aberto, mais próximo de um gesto de memória do que de um personagem construído previamente.
Folhagem nasce de uma lembrança de infância. Todos os anos, durante a ressaca do carnaval do Quilombo Monte Recôncavo, passavam pela frente da casa do artista diversas figuras que faziam parte das celebrações locais: os meninos de lama, as fantasias improvisadas, as caretas, os corpos correndo pelas ruas. Entre essas presenças, havia o Amigo Folhagem, figura coberta de palhas de banana que se aproximava, tocava o rosto do artista ainda criança e seguia. Essa memória permaneceu como uma imagem forte, silenciosa e recorrente.
Com o tempo, essa lembrança deixou de ser apenas memória e passou a se transformar em desejo de presença. Folhagem nasce justamente dessa transformação: a vontade de trazer para o corpo aquilo que antes só existia como lembrança. A performance surge, então, como uma tentativa de dar forma a uma memória que não desapareceu, mas que também não podia mais existir da mesma maneira.
Quando o Folhagem aparece na frente da Casa do Benin, ele já carrega esse deslocamento. A figura surge fora do território onde foi imaginada, atravessando outra paisagem, outro tempo, outra atmosfera. O corpo coberto de folhas carrega lembranças de quintais, plantas, banhos de ervas, vozes mais velhas e práticas que fazem parte das experiências quilombolas do Recôncavo Baiano. Ao mesmo tempo, ele se apresenta como algo novo, que ainda está sendo construído.
A queda — o tombo do Folhagem — torna-se um gesto central. Não é apenas um movimento corporal, mas um momento de transformação. É quando o corpo humano e a memória deixam de existir como coisas separadas e passam a se misturar completamente. A performance não se constrói como narrativa linear, mas como uma sequência de presenças: o corpo, as folhas, o tempo, a paisagem e a memória que insiste em permanecer.
Esse trabalho marca a primeira vez em que o Folhagem deixa de existir apenas como lembrança individual e passa a existir como imagem compartilhada. A fotografia não funciona apenas como registro, mas como parte do próprio processo de criação. As imagens tornam visível uma figura que nasce da infância, atravessa o tempo e retorna como presença.
Ao acompanhar esse processo, torna-se possível perceber que o trabalho de Magdiel Ferreira se constrói a partir de um gesto contínuo: transformar memória em corpo. Não se trata apenas de representar algo que já aconteceu, mas de criar uma forma de permanência. A performance aparece como espaço onde lembranças ganham movimento, onde a infância volta como experiência física e onde o corpo se torna território de continuidade.
Folhagem de repente: quando a memória vira corpo apresenta esse primeiro momento de um processo que ainda está em formação. Mais do que um personagem ou uma cena, o que se vê é o nascimento de uma presença. Uma presença que vem da memória, atravessa o corpo e permanece como imagem.




















