Raízes Cruzadas

Conheci Sika da Silveira quando estive no Benin pela primeira vez, em 2023, durante meu estágio pós-doutoral. Naquele momento, eu estava particularmente interessada em conhecer mulheres artistas e em compreender melhor a cena contemporânea beninense a partir de suas produções. Recentemente havia sido publicado um catálogo reunindo mais de duzentos artistas do Benin, dos quais apenas cerca de vinte eram mulheres, e isso também despertou meu interesse em olhar mais atentamente para essa produção e para as questões de gênero atravessando o campo artístico local.

Foi justamente a partir dessa percepção que um dos eixos curatoriais da ocupação passou a ser o convite a artistas, historiadoras, pesquisadoras, curadoras e agentes culturais mulheres do Benin. Aos poucos foi se formando o corpo de convidadas que compôs a programação da ocupação da Casa do Benin em 2025.

Desde o primeiro encontro, fiquei muito interessada na maneira como Sika desenvolvia sua poética a partir de elementos da cultura Vodun, sobretudo através de uma relação muito forte com a natureza, com as árvores e com a ancestralidade entendida numa dimensão material, e não apenas simbólica. Em 2023 ela começava a experimentar mais intensamente trabalhos envolvendo fotografia, pintura e performance, linguagens que ainda estavam em processo de aprofundamento em sua trajetória. Quando comecei a desenhar a ocupação, Sika foi uma das primeiras artistas que me veio à mente, juntamente com Drusille Fagnibo, que conheci posteriormente no Brasil.

Também me interessava muito o fato de Sika pertencer a uma família Agudá, ou seja, de ter sua ancestralidade vinculada ao grupo dos chamados “retornados”. Esse vínculo tão complexo entre Brasil e costa ocidental africana, atravessado por deslocamentos, memórias e contradições históricas, me parecia extremamente potente para pensar a proposta da residência.

A ideia foi convidá-la para permanecer conosco por um período mais longo, cerca de um mês, permitindo que ela pudesse mergulhar em experiências de história oral, encontros e trocas mais aprofundadas. Promovi encontros dela com Vovó Cici, com o pesquisador Luís Nicolau Parés, além de interlocuções com estudantes da graduação, artistas e pesquisadores ligados ao grupo. Eu queria que sua presença se desse realmente numa dimensão de intercâmbio, numa via de mão dupla, e não apenas como uma participação pontual.

Nesse contexto, Sika desenvolveu trabalhos comissionados para a ocupação, como a performance Raízes Cruzadas e a instalação Au-delà de l’océan. Mas o que me interessava sobretudo era criar um espaço de diálogo, em que sua produção pudesse existir em relação direta com um grupo de estudantes, artistas, pesquisadores e pessoas da diáspora africana brasileira. Havia um desejo de construção comum, coletiva, e esse foi desde o início o desenho da residência. Ao mesmo tempo, ela teve total liberdade para construir seu próprio percurso e desenvolver seus trabalhos da maneira como desejasse.

Ao longo da residência, surgiram também questões históricas muito complexas. Em conversas com Luís Nicolau Parés, Sika se confrontou com informações sobre sua própria ancestralidade ligada a famílias escravistas. Ela cresceu na Casa do Chachá, e o próprio sobrenome “da Silveira” remete a essa história. Tenho a impressão de que a percepção histórica desses acontecimentos no Brasil é bastante diferente da percepção no Benin. Se por um lado existe no Benin um reconhecimento importante da figura do Chachá — há monumentos, praças e até um vodun relacionado a essa memória — em Salvador essa figura aparece de maneira muito mais crítica e dolorosa.

Essa foi uma reflexão muito forte para Sika, e imagino que ainda esteja elaborando tudo isso. Também fomos percebendo diferenças entre algumas das convidadas da residência, porque muitas delas vêm de regiões do norte do Benin que sofreram diretamente com guerras, saques e processos de escravização ligados ao antigo Reino do Daomé. Algumas participantes descendiam de populações historicamente capturadas; outras, como Sika, vêm de famílias associadas a uma espécie de aristocracia daomeana e agudá. No Benin, essas memórias ainda atravessam profundamente as relações sociais. Existe uma pergunta que permanece latente: “você vem da família dos escravizadores ou da família dos escravizados?”. Acho que a presença de Sika em Salvador nos convidou justamente a permanecer dentro dessas zonas de complexidade e ambiguidade, sem simplificações fáceis.

A ativação da performance Raízes Cruzadas foi particularmente emocionante para mim. Houve um momento em que Sika distribuiu fitas do Bonfim produzidas especialmente para a ação, com nomes de famílias inscritos nelas, convidando o público a amarrá-las na récade que carregava consigo. Sinto que existem muitas camadas nessa imagem que ainda não consigo compreender totalmente.

A récade é um bastão de poder ligado à palavra do rei no contexto daomeano. O mensageiro que transporta a récade carrega consigo a própria palavra do rei, e cada detalhe do objeto — o material, os símbolos, a forma — contém códigos e mensagens específicas. Ao mesmo tempo, Sika evocava na performance a presença das Agodjê, as guerreiras do Reino do Daomé, figura profundamente ambígua: símbolo de resistência anticolonial para o Benin contemporâneo, mas também associada à captura de populações destinadas ao tráfico escravista.

Tudo isso cria uma tensão muito forte. Ao amarrarmos as fitas do Bonfim naquela récade — um objeto ligado ao poder real daomeano — que tipo de gesto estávamos realizando? Um gesto de ressignificação? Um desejo de cura? Um pacto? Não sei. Acho que as obras permanecem abertas, e talvez seja justamente essa abertura que lhes dá força.

Lembro muito intensamente da atmosfera daquele dia: o público vestido de branco, o céu do entardecer em Salvador, o lugar onde ela depositou a cabaça. Tenho a impressão de que muitas escolhas foram feitas intuitivamente, mas profundamente conectadas ao território. Em certo sentido, senti aquela ação quase como um ebó, embora eu não saiba exatamente nomear aquilo.

Tenho lido recentemente textos da historiadora Ana Lúcia Araújo sobre as complexidades daomeanas e sobre como, em alguns contextos, a experiência do cativeiro e do retorno pode aparecer também como uma espécie de travessia iniciática. São camadas difíceis de compreender plenamente a partir dos nossos repertórios brasileiros.

Vejo o trabalho de Sika como uma ponte. E o próprio título Raízes Cruzadas me parece importante porque desmonta a ideia de uma origem fixa ou unilateral. Estamos sempre imaginando um retorno à África, mas no caso dela havia também um retorno ao Brasil. Talvez seja justamente isso que tentei elaborar ao chamar a exposição de Habitar a Travessia: permanecer nesse entre-lugar, onde não existem heróis puros nem narrativas estabilizadas. Às vezes o herói também é bandido, e talvez seja preciso continuar habitando essas contradições sem resolvê-las completamente.