
Entre línguas, folhas e memórias
A visita das convidadas do Benin ao Quilombo Engenho da Ponte, localizado no distrito de Santiago do Iguape, no Recôncavo Baiano, constituiu um momento de reencontro simbólico, afetivo e histórico. Participaram da atividade a professora Dra. Blandine Agbaka, chefe do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Abomey-Calavi; a curadora e produtora cultural Lylly Houngnihin; a designer têxtil Nadia Adanlé; as artistas beninenses Sika da Silveira e Drusille Fagnibo; e a artista e pesquisadora brasileira Ana Hupe. A coordenadora geral do projeto Ecos da Diáspora Ocupa Casa do Benin, a curadora, artista e pesquisadora Paola Barreto, atuou como intérprete e mediadora do encontro, marcado por emoção genuína e compartilhada entre as presentes.


O grupo foi recebido no barracão de acolhimento pela liderança Selma Silva Santos, marisqueira do Quilombo Engenho da Ponte, mulher preta, apicultora, ostreicultora, artesã e coordenadora de saúde. Selma estava acompanhada de uma dezena de jovens que integram a Articulação de Mulheres do Quilombo Engenho da Ponte, coletivo composto por 112 mulheres quilombolas. Atualmente, mulheres de Salvador, Santo Amaro e Cachoeira também integram o coletivo. Ao todo, a articulação reúne oito comunidades quilombolas e um assentamento de reforma agrária, consolidando uma importante rede de fortalecimento das mulheres camponesas, agricultoras e marisqueiras de povos e comunidades tradicionais.







A troca de ideias, experiências e saberes entre as visitantes e as anfitriãs desenvolveu-se ao longo de uma manhã e uma tarde de convivência no território. Um dos momentos mais marcantes da visita aconteceu logo no início do encontro, quando Lylly Houngnihin observou um pequeno pacote contendo uma folha medicinal sendo vendida sob o nome “quioiô”. Surpresa, ela comentou que, em sua região de origem — Savalu, no norte do Benin — utiliza-se exatamente o mesmo termo para designar aquela folha. A coincidência foi percebida pelo grupo como um possível vestígio linguístico e cultural da presença de povos mahi naquela região do Recôncavo baiano, sugerindo conexões ancestrais inscritas na linguagem cotidiana. Outros episódios semelhantes surgiram ao longo do encontro, com a identificação de nomes próximos entre o português e línguas como o fon e o mahi para elementos da natureza e práticas do cotidiano.


A experiência tornou visível, de maneira concreta e sensível, formas materiais de continuidade histórica. Também evidenciou diferenças internas ao próprio grupo visitante: enquanto duas das convidadas provinham de regiões do norte do Benin historicamente marcadas pelas razias e pelos processos de captura, outras participantes eram originárias de áreas litorâneas mais diretamente ligadas às elites costeiras e às dinâmicas atlânticas do período escravista.









Em torno do baobá recém-plantado, no interior da pequena igreja do século XVIII ou no campo de cultivo de ostras, o sentimento predominante parecia ser o mesmo: uma mistura de surpresa, reconhecimento, gratidão e espelhamento de experiências. A conversa depois da caminhada pelo território foi acompanhada pela degustação de uma moqueca de ostras frescas, colhidas e preparadas pelas anfitriãs da comunidade. Ao final, uma roda de conversa e cantos coletivos selou o encontro em uma atmosfera de partilha, música, comida e memória viva.

























