Posso ver seu documento?

Quando perguntam meu nome, muitas situações passam em minha cabeça, em apenas uma fração de segundos. A mais comum delas é me perguntarem se o nome é de batismo ou registro, ao que eu costumo responder que sim, a fim de evitar possíveis constrangimentos. Já me disseram, inclusive, que isso acontece por ser um nome muito diferente, mesmo assim desconfio e tenho minhas próprias suspeitas do porquê. O fato é que se trata de um super cuidado, uma vez que pedem desculpas antes da pergunta, ou até mesmo durante o diálogo, afirmando que “é só curiosidade”.

Há dois anos trabalhei em um restaurante como atendente em que clientes sempre perguntavam meu nome, mas a resposta raramente era suficiente. Queriam investigar se tinha sido minha mãe, meu pai, ou os dois os idealizadores; a origem; se fui eu quem escolhi; se é sobrenome ou apelido; se eu tinha irmão e qual era o nome que minha

mãe havia dado a ele. Se minha reação fosse responder positivamente à minha mãe, mudavam logo a investigação tentando descobrir o que ela estava sentindo durante a gravidez. Nessa época, me lembro de comentar com alguém que minha vontade era de responder “Lúcifer”, para o nome do meu irmão, embora fosse uma mentira (saudável), só para testar a devolução do constrangimento alheio. Não sei vocês, mas estou aprendendo a mentir para manter a saúde que me resta.

Outro dia, percebendo como as pessoas me chamavam, já em um outro ambiente, me questionaram se meu nome era por causa do Orixá. Dessa vez eu não contei uma mentira, disse que não e a pergunta feita foi “mas tá no seu documento?” Disponível a ter essa conversa um tanto quanto pedagógica, respondi que não era uma pergunta legal de se fazer, que sou uma pessoa trans e a conversa parou por aqui. Antes mesmo que eu pudesse explicar, contar que pessoas trans, assim como eu, se sentem invadidas e em algum nível invalidadas com essa pergunta, fui chamado de ignorante. “Mas aí você foi ignorante, eu nem sabia que você era trans. Achava que você era homem.” Até hoje tento entender o que fez com que essa pessoa se sentisse, de certa forma, humilhada a ponto de me virar as costas e se retirar da conversa.

Se a especulação fosse só pelo nome e sua origem, se é de verdade ou não seria, talvez, menos preocupante e constrangedor. Fiscalizam sem disfarce algum o tipo de volume, ou documento que carregamos entre as pernas, mesmo quando usamos roupas largas, sem visibilidade de contornos de nossos corpos. É bem possível que digam “você tem corpo de mulher e cara de homem”, ou “achei que você era só uma gay”, ou ainda “engraçado como tem homem que tem cara de mulher, né?!”, como já aconteceu comigo. O problema é que essas micro violências são tão sutis e naturalizadas quanto o medo de reagir a elas.

Isso me lembra uma última situação que me ocorreu e quero relatar a vocês. Estava eu numa festa de aniversário entre pessoas amigas, quando uma bicha cis, dançando ao som de funk, fez um passo que chamou de “borboleta paraguaia”, já contextualizando que não conseguia realizar devidamente por ter um cu, dizendo ainda, que somente pessoas com buceta têm habilidade para tal. Apontando para mim disse “ele consegue, porque é um boyceta”. 

Primeiro, que diabos é uma borboleta paraguaia? Me explicaram se tratar de uma posição sexual e não me lembro de ter dito, em momento algum, sobre minhas práticas sexuais. Segundo, se é sobre buraco, orifício, ou ter um canal por onde se possa introduzir algo, quem tem cu e aprecia consegue. Terceiro, o que muda na vida de alguém a ciência de com quem você se deita e como? Poderia continuar elencando diversos pontos, mas pela falta de paciência e manutenção de minha saúde mental, paro por aqui. Continuei comendo meu feijão tropeiro, enquanto a bicha especulava sozinha sobre minhas preferências afetivas e sexuais.

Todas essas situações me levam a acreditar que pessoas cisgêneras vivem em paz e em dia consigo, já que há tanto cuidado – se é que posso usar essa palavra – com a vida alheia, especialmente diferente e fora do normal. Eu sei que, talvez, a gente receba um nome para não chegar de mãos abanando aqui. Mas o que acontece se esse nome deixar de fazer sentido um dia, ou chegarmos à conclusão de nunca ter feito?

tempuh carvalho
Estudante de Graduação do Bacharelado Interdisciplinar em Artes – Universidade Federal da Bahia.
Bolsista PIBIARTES 2024-2025 e pesquisador no Balaio Fantasma.

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