Portais de Retorno

Trecho extraído e adaptado do texto: “Portais de retorno, fissuras e a água”, de Cristal Saldanha Custódio

Durante meu último ano de graduação, pude participar de diversas das atividades do Ocupa Benin 2025, e mais ainda atuando como produção e mediação na mesa de abertura do Ocupa Benin Recôncavo em Cachoeira realizado em 19/08, onde foram tecidos diálogos e fluxos entre o Benim e Cachoeira. No auditório do Centro de Artes Humanidades e Letras da UFRB a pesquisadora e curadora Lylly Hougnihin (Laboratório Arte Contemporains) nos trouxe alguns aspectos da história da arte, estética vodun e seus entrecruzamentos entre o Benim e o Haiti, contando com a presença da professora e pesquisadora Blandine Agbaka (Universidade de Abomey-Calavi) que partilhou reflexões sobre os desafios da gestão do patrimônio cultural
no Benim e seus desdobramentos. A possibilidade de mediar esse momento com os públicos gerou uma série de atravessamentos, registrados no papel como testemunhos da radicalidade metodológica e conceitual dialogada a partir desse momento da programação.

Ao elaborar sobre as garrafas espirituais no Haiti e as formas com que as tecnologias de manutenção da vida das comunidades negras em diáspora são miniaturizadas e readaptadas à realidade estética e reformuladas politicamente, foi possível traçar conexões com as práticas de relação espiritual e cultural afroindígena em Cachoeira se recria, visando manter os valores éticos, os norteamentos de manutenção vital fundamentais. As garrafas de bebida industrializadas são um elemento bastante presentes na realidade haitiana no século
XIX, e a partir deste elemento a espiritualidade haitiana estruturou um regime estético que viabilizasse a conservação e acolhimento de entidades espirituais, e encontrou na garrafa uma possibilidade de manutenção de saberes. O conteúdo das garrafas possui uma gramática que somente as iniciadas podem decodificar, e suas imagens são diversas, dependem de fatores
que fundamentam e estruturam a religiosidade voodoo nessa porção do Caribe. Pode-se aproximar essas garrafas com as tecnologias dos padês, com as oferendas, os presentes, os
cortejos, as imagens de santos negros, os caboclos e o exercício cívico. São imagens que se aproximam justamente por coreografarem, cada elemento em seu devido contexto, formas de superar a violência colonial e produzir vida e continuidade de memórias familiares e comunitárias.

Assim como, ao refletir sobre a gestão de patrimônios culturais definitivamente envolvidos nos processos de escravização e colonização e afetados por todas essas coreografias de violência são implicados em uma abordagem cultural e turística sensível. Os sistemas de valoração do bem cultural e de sua disponibilidade ao acesso dos públicos (que são de fato os maiores e mais importantes beneficiários e interessados) não podem isolar, ocultar ou negar a influência do universo colonial de violência aos gestos de patrimonialização e monumentalização das arquiteturas. A professora Blandine então transcorre sobre a violência incutida nas expografias de elementos sagrados como as máscaras espirituais geledé em museus que as distanciam de seus lugares de origem e sentido
pleno. Ocorre ali um distanciamento entre as instituições museológicas de Estado das memórias que fundamentam a identidade espiritual comum do povo, orquestrada a partir de
operações museológicas de musealização e as sínteses que serão produzidas para comunicação aos públicos.

A visão panorâmica dos processos históricos que desencadeiam a nação moderna pós-colonial são, no processo de elaboração da professora, fundamentais para a compreensão dos desafios instituídos às culturas herdadas e suas fontes no Benin. Os Reinos e as práticas religiosas herdadas dessas realidades sociais e espirituais consagram demandas contemporâneas de interpretação e manejo por meio de um devir ético e político instituído frente às violações históricas. É um devir curatorial implicado na gestão de patrimônio, uma vez que esses legados éticos, estéticos e políticos da espiritualidade e cultura beninense são sustentados pelas mestras e mestres mais velhos. São essas as testemunhas de um tempo água, que detém memórias mais longevas, que se lembram de quem veio antes, que transmitem o que puderam ouvir, ver, provar, sentir e vibrar.

Ao discorrer sobre os templos sagrados e palácios possuírem uma arquitetura que opera em simbiose com a espiritualidade vodun e os zangbetos, foi possível conectar as demandas contemporâneas de manutenção de memória de espaços sagrados em Cachoeira-BA, no sentido de sensibilizar o olhar patrimonial acerca do devir ético e político de dar continuidade aos valores espirituais e culturais das tradições herdadas pelos grupos jeje, nagô-vodun, ketou, angola.

Ao refletir arquitetura e manifestação do sagrado, é possível conectar as estruturas que fundamentam e organizam um terreiro de candomblé, viabilizando que são consolidadas a partir dos valores e gestos que compõem a memória do culto aos orixás, voduns e nkisis. Sendo assim, as memórias de cada espaço sagrado, de cada egrégora, possuem uma ancestralidade transmitida por meio de uma série de coreografias que ativam o sagrado.

Ao patrimonializar, ou tornar a arquitetura sagrada em espaço de ativação cultural e turística, fica instituída uma demanda relacional de manutenção das memórias e seus valores, suas diretrizes ontológicas. Esse gesto de rememorar opera, então, uma estratégia de salvaguarda dos pilares vitais dos universos espirituais afro diaspóricos e uma necessidade de constante adequação das instituições modernas às demandas dessas arquiteturas e coleções sagradas.

São discussões que permitem mergulhar num mar de vastas profundidades acerca de regimes estéticos instituídos como tecnologias de permanência ontológica, de manutenção de regimes éticos de pertencimento e identidade que, mesmo cruzando distâncias oceânicas e sendo submetidos à violências de despossessão, encontram formas de continuar transmitindo conhecimentos e saberes, cujas formas de apresentação estética vão variar de acordo com os contextos, dependendo da forma com que o mundo colonial e a condição do contexto escravista vão delimitar as fronteiras do escravizado como objeto e a impossibilidade de extrair a totalidade do poder vital e da capacidade de alguém lembrar e construir laços durante a existência.

As ações, então, do Ocupa Benin 2025 traduziram uma série de encontros em linguagens diversas, pautados em ações formativas sensíveis e atentas às demandas contemporâneas de reparação da memória histórica, fortalecimento e renovação de laços entre as diásporas na produção de linguagens contra coloniais, fomento ao diálogo entre instituições museológicas e cursos de ensino superior e experimentando práticas coletivas de investigação e produção artística e acadêmica.

Cachoeira, o Recôncavo e Salvador são redutos da prosperidade colonial brasileira, sendo o entreposto mais importante antes de a capital ser transferida para o Rio de Janeiro. Esses territórios assinalam em seus rastros arquitetônicos e urbanísticos toda uma gramática de construção do mundo colonial, e, no caso brasileiro, são motivos de um orgulho nacional justamente por fazerem referência ao passado colonial.

Ao testemunhar arquiteturas como a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, ou acompanhar os rituais públicos da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, ou avistar a presença do Cemitério dos Nagô, ao escutar um caboclo puxar uma cantiga, ao perceber desenhada nas coreografias de despachar a porta pela manhã, conhecer das folhas e saber onde buscá-las, saber rezar alguém, ser rezada, arriar um padê, entregar um presente, cruzar a ponte no meio de uma manhã de sexta feira, toda de branco, são gestos que, cartografados, demonstram como os detalhes foram sedimentando em sofisticadas tecnologias de resistência e manutenção das memórias.

Ao testemunhar os detalhes, os campos da curadoria e da museologia encontram possibilidades infinitas de produção de pesquisas e práticas mais adequadas às demandas contemporâneas de reparação e promoção de igualdade racial. Desta forma, visando destituir as lógicas dos museus tradicionais e sua ainda tão presente (e demandada lógica) de organização do poder de lembrar e instituir memória histórica em torno da celebração cega ao período colonial e aos projetos de modernidade.