Este texto é sobre as conexões artísticas, espirituais e históricas entre Brasil e África ocidental; um relato sobre uma temporada de residência em Salvador e Cachoeira, no Recôncavo Baiano, a convite da artista e professora Paola Barreto (UFBA) e da pesquisadora e professora Emi Koide (UFRB), que organizaram a vinda de cinco mulheres do Benim, profissionais das artes, para Bahia.
Bahia-Benim
O Ocupa Casa do Benim, em Salvador
O Benim do Lado de Cá, em Cachoeira, Recôncavo Baiano
Da capital da Bahia, olhando o Atlântico encontrar o céu azul entre a caixa d’água de uma laje e outra, refleti sobre as conexões culturais, espirituais, históricas entre Benim e Bahia, sobre como somos constituídos pelos encontros, pelo jogo de relações, como escreve Édouard Glissant. Berlim-Bahia-Benim é um dos triângulos que me ajudam a habitar a travessia, título da exposição do projeto Ocupa Casa do Benim, na Casa do Benim, no Pelourinho.
Inserir foto 1968 da praia do porto e foto 2025
Praia do Porto da Barra, 1968. Foto de Fritz Hemmerling, fotógrafo da ex-República Democrática da Alemanha, em viagem pelo Brasil.
A mesma praia, em 2025.
A vida em Salvador é intensa; somam-se ao calendário de uma metrópole, com suas exposições e lançamentos de filmes, todas as festas de candomblé – agosto é mês de Obaluayê; os sambas de roda; as feiras livres. Dorival Caymmi que o diga. Em carta a Jorge Amado, quando o escritor morava na Inglaterra, Caymmi escreve que num passeio com Carybé pela Rampa do Mercado, tinha contado quinze tons diferentes de azul e visto uma casa de um ocre tão bonito que o inspirou a pintar um quadro:
Tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava fortuna. O que falta é tempo pra pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas por aí. O tempo que tenho mal chega pra viver: ver dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?
Imaginem tudo isso somado à velocidade da era da internet e a receber visitas do Benim na cidade? Os dias na capital baiana em 2025 têm a intensidade das palavras de Caymmi, que ouvi na pré-estréia do filme 3 Obás de Xangô (direção de Sergio Machado), no Cine Glauber Rocha, na Barroquinha. Em menos de vinte dias na Bahia, parecia que já morava aí há um ano de tantas vivências.
Em 2024, Paola Barreto e eu estivemos na II Bienal de Ouidah [Uidá, em português], no Benim, e diante de tantos encontros mágicos, Paola sonhou o movimento reverso: em ver algumas daquelas pessoas na Bahia. Um ano depois, estávamos todas às margens da Baía de Todos os Santos, num deja vu às avessas: Lylly Houngnihin, uma das diretoras da Bienal; a artista Sika da Silveira, a professora de história da arte de Abomey-Calavi, Blandine Agbaka; a artista muralista Drusille Fagnibo e a estilista Nadia Adanlé, com quem colaborei em Ouidah ano passado. As atividades de trocas entre elas e intelectuais, líderes espirituais, artistas e coletivos baianos foram muitas e todos os dias, num cronograma digno da diplomacia oficial, com um cuidado que nunca vi dentro dos circuitos hegemônicos da arte. Penso nas organizações das grandes bienais, com grandes patrocinadores, uma estrutura tão enorme que paradoxalmente torna difícil o cuidado atencioso com os participantes; é preciso dar conta da máquina. A troca cultural profunda da ocupação feminina do Benim na Bahia certamente vai reverberar em projetos transculturais individuais e coletivos nos próximos anos, tanto dos participantes quanto dos estudantes de arte, que formavam a equipe. Um estágio de pesquisa na realidade de produzir um evento internacional.
Destaco aqui alguns highlights pessoais da programação, entendendo minha participação nesse projeto também como observadora, uma testemunha-participante, mais uma ponte entre todas as pontes que os encontros Bahia-Benim constroem, com uma varinha, terceira haste do triângulo estendido até a Europa Central, que historicamente intermediou encontros entre a costa ocidental da África e o Brasil, dando uns nós que tentamos desatar agora. Meu papel, vivendo em Berlim há onze anos, talvez seja o de chegar o mais próximo possível de entender as colonialidades abafadas na subjetividade coletiva do centro do capital, os modos de organizar que ainda orientam os programas de domínio hoje. Para confrontá-los, precisamos, por um lado, compreender melhor as línguas hegemônicas, as linguagens, fazer alianças, romper costumes. É um movimento lento, que exige bastante paciência, um trabalho invisível e árduo, mas de onde brotam significados transformadores. É também necessário entrar profundamente na nossa própria cultura, e para isso é fundamental conhecer as culturas iorubá, bantu, fon, um trabalho sem fim de deslocamentos, entre um lado e outro, num eixo piramidal. Recentemente, tive uma reunião com um diretor de uma instituição pública de arte em Berlim, pra quem apresentei meu trabalho e ele reagiu surpreso, meio confuso, por eu pesquisar na Nigéria, no Benim, sendo brasileira e morando na Alemanha. A vida em 3D, que atravessa os binarismos na diagonal, é ainda um desafio de comunicação necessário para criar novos sentidos.
Na Casa do Benim
Quando cheguei a Salvador, o Ocupa Casa do Benim havia começado há mais de dez dias. Fui direto pra a Casa, iniciativa de Pierre Verger de 1988, destinada a receber estudantes beninenses na Bahia, que parece que foi pouco ou nunca usada para este fim. Hoje, é um espaço cultural onde três mulheres do terreiro Asipá, fundado pelo artista e sacerdote Mestre Didi, conversavam frente a um público atento. Asipá é um terreiro em Salvador de culto aos ancestrais e o debate nos fazia traçar paralelos de continuidade com o vodu no Benim, que também celebra os egunguns. Ao final da fala, Mãe Cida, integrante do Asipá e uma das netas de mestre Didi, serviu seu acarajé de Iansã. Em Salvador, partilha-se comida em eventos públicos, uma forma de distribuir o axé, fui me acostumando ao longo dos dias. Ainda mais em agosto. Por ser mês de Obaluayê, tem gente servindo comida até pelas ruas, uma forma de oferenda – Olubajé. Saindo da Casa do Benim, uma moça servia mungunzá a quem passasse na esquina. Ela disse que fazia esse trabalho todo ano. Foi nossa sobremesa.
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Depois da cerimônia do inhame no jardim da Casa do Benim.
O Ocupa Casa do Benim seguiu como uma universidade experimental, uma atividade seguida da outra, um congresso com diversas locações. Sentamos no jardim de Lina Bo Bardi, que assinou o projeto arquitetônico da Casa, em volta de Lylly Houngnihin. Ela conduziu a festa do inhame, típica no Benim àquela época do ano. No centro da roda, um inhame cortado e uma garrafa de dendê. Ela cantou, partiu-o e o plantou no jardim de Lina. Depois da cerimônia, contou do significado da festa, que acontece em 14 de julho, data a que associamos também à liberação de Abya Yala e à queda da Bastilha. Além de celebrar a colheita e a purificação, o povo Mahi-Savalu, ao qual Lylly pertence, renova votos de resistência política nesta festa. Mahi-Savalu são povos das colinas no Benim que resistiram à expansão do Reino de Daomé, foi lá que muita gente se refugiou na época de tráfico intenso de pessoas. No público, havia três beninenses que vivem em Salvador – um deles vendia roupas e acessórios no jardim – e um nigeriano iorubá de Lagos, que compartilhou sobre o significado do inhame para Oxaguiã. Os quatro se sentiram impelidos a contar suas histórias de migração para as convidadas beninenses, já que o centro do debate eram as ligações de Brasil-África ocidental.
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Ebomi Cici de Oxalá demonstrando como os árabes fazem a amarração do keffiyeh na roda de conversa com as Ganhadeiras de Itapuã.
A energia forte dos encontros Atlânticos se fazia presente a todo o tempo, coisas que a gente afirma importantes na teoria aconteciam ao vivo à nossa frente. Ebomi Cici de Oxalá é uma sacerdotisa que foi assistente de Pai Fatumbi, o nome de continuidade de Pierre Verger. Ela chegou para a fala com o grupo Ganhadeiras de Itapuã, senhoras de idade que tiveram dificuldade de subir as escadas, mas que pediam a palavra na roda. Contaram da trajetória do grupo, que se apresenta hoje com danças e cantos. As mais velhas – tinha uma de 92 anos – ainda cresceram tirando o sustento de roupas lavadas na Lagoa do Abaeté, que hoje seca com as mudanças climáticas. Muitas das sucessoras são filhas e netas que continuam a tradição de se juntar para dançar e cantar, como numa irmandade. Vovó Cici e as mulheres do Benim trocavam histórias com elas num círculo tão emocionado que houve três incorporações na sala, mesmo sem o chamado dos tambores. A estilista Nadia Adanlé prometeu costurar saias de índigo para o grupo inteiro para usarem no 1. de novembro, junto com dia de grande festival no Benim. As mesmas saias azuis, de um lado e outro do Atlântico.
A conversa aconteceu numa sala do segundo andar da Casa do Benim, onde Emi Koide mediou uma fala entre Nádia Adanlé e mim no dia anterior. Nádia tem uma galeria de arte em Ouidah, além de sua fábrica de tingimento de índigo resgatando as técnicas tradicionais no Benim. Em menos de uma hora, nós três montamos uma exposição na sala onde aconteceria a nossa fala e o encontro com as Ganhadeiras. Os tecidos de Nadia juntaram-se a alguns da coleção de Emi, do Mali e de Oṣogbo, na Nigéria, e à série que realizei na fábrica da Nadia: estampas em índigo a partir de técnicas de batik e ligaduras de costura feitas a partir de objetos iorubás e fon das coleções de museus etnográficos alemães. Essa série veio de um impulso em realizar uma restituição poética. Eu sonhava em transformar em tecidos os objetos dos museus, para que circulassem e, ao menos como referência estética, fossem parte do dia a dia no Benim. Um impulso utópico no início, que se tornou realidade tão rápido enquanto estive no país: o tempo lá é certamente outro, menos burocrático. Este mesmo tempo, do impulso e do improviso com esmero, foi empregue na hora de montar nossa exposição, sem burocracias prévias. Em duas horas, tínhamos um mergulho no mar ou no rio quando entrávamos no espaço, preenchido pelas diferentes séries de tecidos índigo, alguns que mostravam os diferentes pontos ou padrões tradicionais e uma série de Nadia, feita especialmente para mostrar no Brasil, com detalhes das fachadas das arquiteturas afro-brasileiras no Benim, transformados em estampa.
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Montagem da exposição na sala do segundo andar da Casa do Benim, com Nadia Adanlé.
O batik é uma técnica de resistência, onde a parte bordada e costurada do tecido ou coberta pela cera de vela quente ou pela pasta de mandioca resiste ao tingimento, criando as estampas. Nadia Adanlé usa mais de vinte tipos de ligadura (como são chamados os pontos de costura antes do tingimento) em sua fábrica, a Couleur Indigo (https://couleurindigo.bj/). A formação das imagens acontece pelo negativo e carrega um mistério parecido com a revelação de fotografia analógica em quarto escuro. As tinas de índigo são consideradas entidades sagradas pelo povo fon, quanto mais velhas, melhores são. É preciso mantê-las a uma temperatura ambiente de cerca de 28 graus e tratá-las mexendo o líquido azul com um bastão todos os dias. Cada mestre têxtil tem um bastão pessoal, é como uma varinha mágica. A tina de índigo é também emblema de Dakodonu, um dos reis de Abomei, capital do Daomé (antigo Benim), cujo reinado foi de 1620 a 1645. Diz a lenda que ele matou um inimigo afogado dentro de uma tina de índigo.
Inserir emblema do rei dakodonu
Durante a Bienal de Ouidah 2024, quando trabalhei intensamente na fábrica de Nadia Adanlé por duas semanas, testemunhei o dia a dia dos trabalhadores do país que ainda hoje é um dos maiores produtores de algodão no mundo. Os tecidos de algodão usados para o tingimento são produzidos na fábrica também. Passei tardes costurando e conversando com o departamento inclusivo de costura, onde todas as trabalhadoras são pessoas com alguma deficiência física. A maioria delas só falava fon, mas a gente conseguia se comunicar. Também fiz amizades com os jovens costureiros, que me ajudaram a montar páginas de um livro feito com os retalhos das roupas que eram guardados pela fábrica, onde tudo é reaproveitado. A equipe de desenho e tingimento era composta pelos mais experientes, que trabalhavam no terraço, ao ar livre. Essa engrenagem sofisticada me possibilitou realizar oito tecidos tingidos em duas semanas. Era o início de uma ideia de coleção só com objetos fon armazenados em museus europeus, a que Nadia deu continuidade.
Inserir imagens dos costureiros com retalhos na fábrica
Cachoeira
No Recôncavo Baiano, o grupo de mulheres do Benim, estudantes e professores foi recebido pela Roça do Ventura, um terreiro jeje, como chamam os terreiros de influência mahi, fon e de touros povos presentes no Benim. Cultuam os vodus desde 1765, data da fundação da casa, de acordo com documentos históricos. A roça é no meio do mato, uma entrada com um lago, palmeiras e o símbolo de Dan, a serpente que come o próprio rabo popularmente conhecida como Oroboro. Quatro ogãs tocaram dentro da casa, pintada de verde e amarelo, cores de Ogun no vodu, como aprendi na fala de Blandine e Lylli na noite de abertura oficial do auditório da UFRB.
Três vodúnsis dançaram, às quais se juntaram as mulheres do Benim, em movimentos diferentes, às vezes dissonantes, às vezes harmônicos. A professora Blandine comentou que os tambores da casa não deixavam nada a desejar aos mestres beninenses. Mestre Buda, o líder dos ogãs, contou sobre todos os vodus que cultuam e Lylly observou que alguns deles não estão mais no Benim, mas que se encontram também no Haiti. A diáspora pode cuidar de parte da herança africana que foi apagada do próprio continente.
No retorno de Cachoeira a Salvador, a temporada no Benim e a residência com as artistas beninenses terminava. Foi um tempo suspenso, de quebra numa lógica de mundo que insiste em nos separar e individualizar cada vez mais. Os encontros nos constituem, mesmo que a gente falhe mais do que acerte na comunicação. O esforço de ir além do abismo que nos separa cultural, econômica ou socialmente abre uma janela numa rua sem saída. Mesmo que tenhamos herdado uma desordem estrutural comum do processo de colonização, há ainda um abismo que só pode virar chão se a gente habitar a travessia, feita de encontros, memórias e resistência.
Ana Hupe (www.anahupe.com, 1983, Rio de Janeiro) é artista visual e pesquisadora associada na História da Arte da Burg Giebichenstein Kunsthochschule Halle, Alemanha. É doutora em Artes Visuais pela UFRJ, com um ano de doutorado-sanduíche na Universidade das Arte (UdK), Berlim.
Sua prática artística é baseada em pesquisa e em diálogo com outras disciplinas e pessoas. Seus projetos endereçam disparidades econômicas e sociais e procuram reescrever histórias de ressitência em instlação com narrativas múltiplas. Tópicos que abordam cultura, ecologia e espiritualidade foram seu corpo de trabalhos, que emprega diversas mídias e técnicas, como video, fotogradia, escrita, poesia, gravura e escultura.
Seus trabalhos integram acervos públicos da ESCALA (Essex Contemporary Art Latin America, Reino Unido), Museu de Arte Moderna – MAM Rio de Janeiro; Museu de Arte do Rio – MAR; IPHAN-RJ (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil).















