Na rota do azul

Nos dias 11 e 12 de março de 2025, como atividade de abertura do semestre da UFBA, o Programa Internacional de Residências Artísticas e Científicas PIRAC – Balaio Fantasma recebeu as artistas baianas Inaê Moreira e Safira Moreira para dois encontros públicos em Salvador, conectando universidade, museu, corpo, cinema, memória e diáspora.

As filhas de Angelica retornavam naquele momento de uma viagem da pesquisa ao Benin, com o projeto “Na rota do azul”. Conectando saberes ligados ao cultivo e à pigmentação do índigo, e práticas contemporâneas de dança, performance e criação artística, Inaê e Safira Moreira estabeleceram um diálogo com a designer Nadia Adanle, que as recebeu para uma residência no Atelier Couleur Indigo, em Ouidah, no Benin.

A aproximação entre as artistas brasileiras e Nadia Adanle também nasce das redes construídas pelo Ecos Africanos e pelas articulações desenvolvidas por Paola Barreto no Benin desde 2023. O reencontro em Salvador torna-se, assim, uma espécie de retorno e contrapartida simbólica dessas conexões transatlânticas que seguem produzindo novas experiências coletivas entre arte, memória e travessia.

No dia 11 de março, Inaê conduziu, na Torre do IHAC/UFBA, uma prática de movimento como aula inaugural da componente curricular “Ação e Mediação Cultural Através das Artes”. Entre gestos, respiração e escuta coletiva, a artista compartilhou procedimentos construídos a partir dos saberes Yorubás e Bantu, articulando dança, espiritualidade e cuidado. Mulher negra, mãe, artista multilinguagem e pesquisadora, Inaê vem desenvolvendo uma trajetória marcada pela criação de espaços coletivos de pesquisa e fabulação, onde corpo e memória operam como territórios vivos.

No dia seguinte, o azul continuou seu giro nas arcadas do Museu de Arte Moderna da Bahia. Em diálogo com sua irmã Safira Moreira — cineasta e parceira na elaboração da pesquisa — Inaê compartilhou imagens, relatos e reflexões sobre a experiência vivida no Benin. Mediado por Paola Barreto, o encontro reuniu artistas, estudantes, pesquisadores e público em torno das conexões entre África Ocidental e Bahia, num campo de afetos que ultrapassa fronteiras geográficas e temporais.

Ao investigar o azul como matéria sensível atravessada por história, memória, corpo e ancestralidade, o trabalho das artistas fortalece redes científicas, artísticas e culturais entre a costa ocidental africana e a Bahia. Desde então, essas conexões vêm se expandindo em residências, exposições, seminários, filmes e experiências coletivas que reafirmam a potência das travessias afro-atlânticas contemporâneas.