Mulheres no Culto de Babá Egun

Transcrição

Pergunta 1: Qual é o papel das mulheres num terreiro de Baba Egun?

I: Bom dia, primeiramente, me apresento. O meu nome é Iraildes Maria Santos e, dentro do terreiro Ilê Asipa, eu sou Adelayô, que significa “coroa da alegria”. Sou filha de Nídia Maria Santos, conhecida também como Iyá Detá, pelo lado do orixá, e Badabarawo, dentro do culto de Baba Egun. A minha mãe é filha de Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), o Alapini, sumo sacerdote do culto de Baba Egun e filho de Mãe Senhora, Oxum Miwa (Maria Bibiana do Espírito Santo). Mãe Senhora foi a terceira Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá e descende da sua avó, Marcelina Obatossi, que foi a fundadora da Casa Branca, o terreiro Airá Intile. Faço parte do terreiro Ilê Asipa, fundado pelo meu avô, o já mencionado Mestre Didi. Comecei a frequentar este terreiro aos cinco anos de idade, quando o meu avô comprou o terreno, com o meu irmão e um grupo de jovens que já eram iniciados no culto a Baba Egun na Ilha de Itaparica, no terreiro Agboula, em Bela Vista. Eles foram ajudar a capinar uma área do lado da Avenida Orlando Gomes que, naquela época, não tinha nada e era cercada de mato e barro, tanto que o terreiro Asipa é a primeira estrutura que se constrói nesse espaço. 

O culto a Baba Egun é administrado por homens, mas o papel das mulheres é importantíssimo dentro desse culto, até porque, no início da história, a invocação dos Babas era feminina. O culto das Geledés constitui o primeiro culto de evocação dos ancestrais. Segundo alguns itãs (contos míticos), esse culto era liderado por mulheres, e Nanã, Iemanjá, Oxum, Iansã, Oba foram as primeiras mulheres que começaram a fazer a evocação dos ancestrais. Não irei me demorar na contação dos itãs, mas é bom relembrar o papel da mulher lá no princípio. É a história de como a mulher perdeu o poder de trazer os Eguns e os homens passaram a ter esse controle sobre o awô (segredo) do cuidado com os ancestrais. Com isso, contudo, as mulheres não foram totalmente banidas. Elas não puderam mais deter o segredo da evocação. Ocorreram novos processos: os Eguns com os quais as mulheres lidavam não falavam, era como se fossem uma careta. Com os homens, os Eguns passam a falar, portanto, passou-se a ter um outro preceito, um outro tipo de awô. O que é relevante é que esse processo nasce com o feminino, é importante deixar isto bem claro: começa com o poder feminino. O casamento desses dois poderes, o poder masculino e o poder feminino, transforma o culto a Baba Egun da forma como a gente hoje o conhece. 

As mulheres perdem o direito ao awô, mas não perdem o direito de estar nos ambientes nos quais é cultuado Baba Egun. É um ambiente fechado masculino, mas existe uma parte de fora que é importantíssima. Por isso, quanto à pergunta qual o papel da mulher no terreiro de Baba Egun? Eu respondo que o papel da mulher é importantíssimo. Não é só sobre evocar o Egun, não é só a matança, que certamente é fundamental, mas importa também a organização de tudo o que é feito dentro do terreiro. Os homens administram, sim, o culto, mas volto a reforçar: é a combinação da energia dos dois, os homens cortam e as mulheres cozinham. É o poder inicial da mão masculina na matança que termina, fecha, conclui-se com o poder feminino, através da preparação dessa comida que vai até os pés dos ancestrais. Nós nascemos da terra e voltamos para a terra, e essa comida é distribuída para as pessoas que estão na festa, mas ela também retorna aos pés do Iroco, ou de Onile, ou do bambuzal, num ritual em que o que a gente come retorna à terra. Isso tudo passa pelos dois poderes: masculino e feminino. O papel feminino reside justamente na função de organização que permite que as coisas possam fluir de uma forma positiva. Não há um sem o outro e é assim também no lado do culto aos orixás. Lá, precisamos do masculino, com os alabés (tocadores), os axogun (ogãs prepostos aos rituais de sacrifício), alguns são também adoxu e recebem orixá, mas existem funções dedicadas exclusivamente às mulheres. Por exemplo, em alguns terreiros, apenas as mulheres podem sentar na cadeira, sendo a última palavra da mulher, porém, isso não quer dizer que não tenha homens que façam parte do círculo dessa comunidade, como os ogãs.

O papel da mulher no culto a Baba Egun está na parte da administração, da organização dos alimentos e também da recepção das pessoas que vão chegando: o chamado acolhimento. O homem tem a função de estar na parte interna do awô, para que a energia e o Egun possam vir e se realize o ritual. Por isso, alguém precisa estar do lado de fora, precisa preparar comida, tornar o ambiente adequado para que se tenha festa e para que essas energias possam vir à terra. Esse poder das mulheres por muitos não é percebidos e é pensado como mínimo dentro desse espaço religioso onde o homem é quem manda e sobre o qual se diz que o culto é totalmente masculino. Eu digo que quem invoca é o homem, mas o culto é misto, e digo isto porque sem o poder feminino nada pode acontecer. Sem o poder feminino devotado à comida e recepção, o homem não poderia se dedicar ao poder interno do awô. A junção da energia masculina e feminina complementa o Axé. 

Pergunta 2: Qual é o valor da cozinha dentro de um terreiro?

I: Tanto homens como mulheres, concretamente, podem cozinhar. Foi a influência colonial que veio impor que os trabalhos domésticos são coisa de mulher; a verdade é que o ato de cozinhar e o de cuidar são universais, de todos. Todavia, no culto a Baba Egun e também no culto de orixá, a mulher detém um poder no ato de cozinhar, pois a cozinha é um espaço de ensinamento. Os mais velhos costumam dizer que as mulheres possuem uma forma melhor de conduzir, de educar, de passar o chamado efó (sopro). A Mãe Terra é fêmea, é ela que gera, que dá fruto. Quando a mulher domina o espaço da cozinha, ela propaga a energia do cuidado e dá amplidão ao sentimento de propriedade, de acolhimento, de passar para o outro da forma mais amável, de mostrar que toda a comida deve passar por mãos que possuem afeto. O homem é imediatista, rápido, ágil; a própria estrutura da sociedade, da criação familiar transforma o homem e deixa ele mais duro, ao passo que as mulheres gostam de cantar, dançar, alegrar, mesmo na dor. Eu lembro do documentário sobre Egungun em que se narra a dura, sacrificada vida das mulheres, que tinham muitos filhos e faziam o milagre dentro de casa, enquanto os maridos estavam fora, sendo pescadores. Elas saíam para lavar roupa nos poços longe de casa, com essas roupas na cabeça e os filhos nas costas. Elas traziam os baldes de água. A mulher tinha o dom de ser a multiplicadora, tanto que dizem que ao redor da mesa a gente faz a comunhão das energias, a confraternização, a negociação. Isso tudo é através da mãe, da geradora que senta todo mudo junto ao redor de uma mesa. A mulher transmite a união de afeto, de poder feminino. O ato de cozinhar deixa as digitas dentro do alimento. O homem se ocupa da obrigação da matança, como se fosse caçar, e a mulher faz a continuação de um processo de energia masculina e feminina que cumpre um círculo. O papel da mulher não é só o mero ato de cozinhar, é deixar as suas digitais naquelas oferendas para os nossos ancestrais e os nossos orixás. As mulheres, enquanto cozinham, cantam, conversam, utilizam o poder dentro delas ao colocarem as suas mãos nos alimentos, numa sintonia de energias que são soltas no momento em que elas cozinham em conjunto.

Pergunta 3: Sabendo que é um culto masculino, qual é o papel das sacerdotisas?

I: Eu lembro que o Alabá (sacerdote maior de Baba Egun) Genaldo costumava dizer que as mulheres eram o jardim da casa. A música Amu nilé, do mito kawô, canta: Ojú oró ni ojú awo e, ara ni ojú oro o / Ojú oró akobanileo / awre logbe oró / Awre ni awo rere ô, “Os olhos dos participantes são os olhos do mistério. O corpo são os olhos dos participantes. Os olhos dos participantes são o jardim da casa”. Ou seja, quem são os olhos da casa enquanto os homens, os ojés (sacerdotes) estão na parte interna do culto para o Egun poder vir ao Aiyê (terra)? Quem é esse olhar cativo, carinhoso, cuidadoso? Essas mulheres. Os homens confiam. No momento em que não tem nenhum deles na sala, há várias delas sentadas cantando, organizando, tomando conta para que o ritual, a festa aconteça. Então, o papel dessas mulheres dentro do culto a Baba Egun é exatamente esse. 

Os Eguns sabem que o papel das mulheres é fundamental e sem elas as coisas não acontecem. Há uma falta, uma necessidade dessas mulheres para os trabalhos duros. Quem chega lá só vê as mulheres cozinhando e varrendo, é muito mais do que isso. Os Eguns fazem uma brincadeira e colocam as mulheres para tocar e as mulheres cantam, cantam e aí os homens cantam mais alto, mas repare, no decorrer da festa, quem é que fica quatro horas cantando e batendo palma sem parar? Somos nós, mulheres. Se você fosse filmar, iria ver os homens sentados com os braços parados entre as pernas, observando a festa. Homem só canta ou bate palma quando Egun manda. A mulher está no início e no fim. Não precisa Egun mandar, elas fazem porque elas gostam, elas fazem porque elas são motivadas por essa energia ancestral feminina e masculina. Elas sabem que o terreiro pode ter o título de culto masculino, mas que é uma união dessas duas energias. Então, o papel das sacerdotisas dentro do culto de Baba Egun é fazer fluir a energia feminina, mas não em sentido dominante. Essa questão de dominante e dominada é dos colonizadores. É no sentido de ser parceira numa religião na qual cultuamos os nossos antepassados. Eles vêm e falam com todas elas como “minha filha”, não como “minha súdita”. Isso demonstra que Baba não faz diferença e sabe que necessita do ojé (DEFINIÇÃO), o qual sabe do awô, mas, quando ele está na terra, todos são filhos dele, sem discriminação. 

O interessante é que, quando as mulheres chegam aqui da África como escravizadas e fundam o culto a orixá, que foi menos difícil do que implantar o culto a Baba Egun, elas cantam para Iyá Obogundê, “a mãe que veio com a guerra”. Uma mãe que veio com a guerra não vem só, ela vem munida de memórias, de afeto e de poder ancestral. A ancestralidade dela apoiava ela, por mais que fosse acorrentada, presa. Essa mulher trazia no seu útero uma memória viva, todo o poder ancestral e da mulher. O poder dela transformar comida em força. A energia da mulher é diferente da energia do homem e quando elas se juntam, se complementam. Não existe uma energia maior ou melhor, existe uma complementação desse poder. O culto pode ser intitulado como masculino, mas a mulher tem um papel fundamental para que este culto possa transcorrer da melhor forma possível. Quando o Alabá sai e agradece a todas as mulheres, quando Baba Olokutum, Baba Alapala saem e agradecem a todas as mulheres, a todos os visitantes, é porque eles sabem que a energia que a gente está emanando ali fortalece e faz com que os Eguns possam vir do Orum (céu) para a terra e escutem os nossos pedidos. As sacerdotisas e os sacerdotes são complementares, tanto no culto dos orixás, como no culto de Baba Egun. Cada um tem seu papel e sua função, isso não torna um maior ou melhor que o outro. Tá ni ô, keni ô, ki lo já, moki lojé alè kuru lega, alega lé kuru: “O maior não é melhor do que o menor, nem o menor é melhor do que o maior”. No fundo, somos todos iguais, perante Olodumare, deus supremo, somos todos iguais, cada um seguindo o seu caminho e, no decorrer do caminho, se encontrando e se unindo por um bem maior. Obrigada. 

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