Mãos Negras Memórias Tecidas

Mãos negras, memórias tecidas
Lylly Houngnihin, em co-curadoria com Paola Barreto

“Tecer o mundo não é apenas entrelaçar fios… é conectar espíritos, forças, tempos.”

A exposição Mãos negras, memórias tecidas investiga a potência das mãos negras — aquelas que tecem, polem, esculpem, transmitem — não como simples ferramentas, mas como órgãos de pensamento, vetores de memória e lugares de intervenção estética. Essas mãos, silenciadas nas narrativas oficiais, são aqui reafirmadas como fundadoras de uma nova epistemologia do patrimônio cultural africano.

Por meio de um corpus de objetos rituais, têxteis, esculturas e fotografias oriundos do Golfo da Guiné, a exposição explora as relações profundas entre gesto, matéria, linguagem e cosmologia.

Cada peça apresentada — dos tabuleiros de Ifá iorubá aos salvo-condutos de marfim de Abeokuta, dos tecidos ativados no culto Sakpata aos batiks agrários baoulé, dos panos tecidos otamari (tanko) aos wax codificados do enxoval de dote — revela, em sua própria materialidade, uma escrita do mundo sob a perspectiva da África.

Esse corpus de rara densidade dialoga com a coleção permanente da Casa do Benin, não numa lógica ilustrativa, mas numa dinâmica de articulação de saberes, entre práticas voduns e herança afro-brasileira. Através dessa tensão, a exposição propõe uma hipótese: o têxtil, em sua acepção mais ampla, constitui uma estrutura cognitiva por excelência — arquivo, linguagem, interface ritual e suporte de soberania.

Por fim, a presença de obras fotográficas contemporâneas (como as de Avokan Lo, retratando a Mesquita Central de Uidá com sua arquitetura afro-brasileira) ancora a proposta numa temporalidade atual, mostrando que a linguagem do têxtil — seja tecida ou visual — permanece, hoje, um instrumento de resistência, orgulho e recomposição identitária.

Mãos negras, memórias tecidas é uma homenagem ao nosso patrimônio comum, um dispositivo de ativação curatorial, um espaço crítico onde objetos, gestos e palavras voltam a ser vivos, interpelando corpos, olhares e saberes.

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