Kilombo Canzuá

Um boi que sabe nadar do Benin até a Bahia.

Zulmí Nascimento

Salvador, 27 de março de 2026

No mês de setembro ocorreu o grande ritual de finalização da ocupação do Balaio Fantasma na Casa do Benin em Salvador. Como integrante pesquisador do grupo, vinculado ao mestrado de Dança da UFBA, tive a honra de mediar a participação do “Boi Aboité”, brincadeira guiada por Mestra Dandara junto ao Centro de Tradições Vivas – Kilombo Canzuá. 

Os meses de agosto e setembro são os expoentes das festas de morte de Bumba-meu-Boi,  no Maranhão, estado que concentra a maior quantidade de brincantes dessa tradição nômade. A brincadeira acontece em diferentes formatos em diversos territórios com ênfase no norte e nordeste. A maranhense nos chama atenção por trazer uma conexão e similaridade com os cultos Voduns do antigo Daomé, hoje conhecido como Benin.  Seria impossível precisar onde e como as ritualísticas de Bois Encantados chegaram ao Brasil. 

Ao considerar que a invasão europeia juntamente com o tráfico de africanos começou pela Bahia, então seria justo dizer que a Bahia recebeu a primeira pegada de um Boi, o que torna o trabalho da Mestra Dandara em retomar essas brincadeiras para Bahia uma continuidade do elo da diáspora, seguindo os tempos espiralados e dinâmicas cíclicas de vida e morte presente nas várias tradições africanas e indígenas. A narrativa principal por tras da brincadeira do boi, é sobre a resistência de uma mulher escravizada numa fazenda , Catirina,  que deseja comer a língua do Boi mais caro do Patrão. Uma alegoria fantástica sobre gênero, raça e classe persistindo a séculos em formato de brincadeira dançada.

A professora Paola Barreto em suas viagens para o Benin e eu em minhas viagens pro Maranhão,  passamos a nos corresponder por fotografias que dançam e contam muitas histórias semelhantes. Nos fascinamos ao perceber como as referências encantadas se costuravam e se compõem. Paola me disse que eu precisava conhecer a “Burrinha” mantida pelos povos  Agudás no Benin, que aqui no Brasil se manifesta tanto dentro do Bumba-meu-boi do Maranhão, quanto no Cavalo Marinho do Pernambuco. Importante ressaltar aqui que a brincadeira do Boi do evidencia a grande confluência entre matrizes africanas, indígenas, árabes, ciganas, mouras e portuguesas. Cada personagem brincante carrega em suas danças, características, instrumentos e vestimentas que podem ser observadas nessas outras culturas. 

Há cerca de 5 anos decido assumir minhas origens boiadeiras nômades familiares, e trago a brincadeira como norte e nordeste das minhas pesquisas. Mergulhei na auto fabulação de investigar histórias de um Boi que meu bisavô tinha, com o nome Menilick , o rei da Etiópia que impediu a colonização. Junto ao Balaio fantasma venho desdobrando outras pesquisas e obras, tecendo elos com pesquisadores afro-indígenas em suas variadas narrativas diaspóricas que afirmam essa grande teia de “Anansi”, entidade Ashanti que também se manifesta nos cultos Maranhenses.