
Entre os fluxos e refluxos familiares
Luiz Pedra
Durante a nossa programação na II Ocupa Casa do Benin que ocorreu no Recôncavo Baiano, tivemos o prazer de receber a artista plástica beninense Sika da Silveira, ministrando a oficina “Histórias de Família” entre os dias 20 e 21 de agosto na Galeria Hansen, em Cachoeira. Sika, uma das artistas residentes do Programa de Residências Artísticas e Científicas (PIRAC) Balaio Fantasma, veio mobilizada por um desejo de retornar, buscar na diáspora os caminhos que sua ancestralidade traçou. Descendente de Agudás, africanos escravizados no Brasil pelo tráfico transatlântico, mas que conseguiram retornar estabelecendo-se principalmente no Benin, Togo e Nigéria, Sika retorna à diáspora, investigando em sua poética as travessias, os retornos e as memórias.









Trabalhando com a artista, fomos instigados a pensar as travessias e os fluxos familiares como metodologia poética e artística, integrando as palavras, traçados e desenhos realizados durante a oficina numa obra coletiva, que mais tarde integrou a exposição “Fluxos e refluxos do Benin para o Recôncavo” na Galeria do CAHL.





Num primeiro momento, Sika nos convidou a trazer objetos familiares, sejam eles tecidos, objetos, vestimentas, fotos. Esse ato de conexão ancestral nos convida não somente a retomar as histórias das nossas famílias, mas também a se colocar em relação com as histórias do outro, entre seus afastamentos e aproximações na Bahia, no Benin, no Atlântico.





No segundo momento, esse mapa de memórias coletivas foi começando a tomar forma, se transformando na obra coletiva. Diante de todas as barbáries da colonização, pensar a potência das histórias familiares de maneiras coletivas é chamar à roda também nossos ancestrais, para que eles não sejam esquecidos. Portanto, ao fazer esse gesto, a obra se ergue como um assentamento, um espaço de culto às mais infinitas temporalidades que convivem conosco e que nos fizeram chegar até aqui.
Quando penso na potência do trabalho de artistas negros do continente e da diáspora, nada mais me vem à mente do que esse gesto de continuidade, afinal, entre os fluxos e refluxos, seguimos aqui.








