Residência Sika da Silveira – 23/ Julho/ 2025 a 25/ Agosto/ 2025

A Residência de Criação Ancestralidade Agoudá integrou a programação da Ocupação Artística e Cultural da Casa do Benin – Ecos Africanos como um dispositivo curatorial de pesquisa em processo. Realizada entre 23 de julho e 25 de agosto, a residência acompanhou o trabalho da artista beninense Sika da Silveira em um percurso de investigação de arquivos públicos e privados que documentam a história de famílias afro-brasileiras entre o Benin e a Bahia, partindo de sua própria experiência como integrante de uma comunidade agoudá.
Mais do que uma etapa preparatória para a produção de obras, a residência foi concebida como um espaço de elaboração de memória, no qual pesquisa, criação e compartilhamento acontecem de forma indissociável. Ao longo de quatro semanas, a artista desenvolveu um mergulho em fontes bibliográficas e orais, visitou museus, institutos, espaços culturais e espaços sagrados relacionados à temática, além de estabelecer diálogo direto com famílias brasileiras de origem beninense e com acervos públicos e privados em Salvador.

Esse processo resultou em uma performance apresentada na abertura da exposição Ecos Africanos, no dia 1º de agosto — data da independência do Benin — na Casa do Benin. A escolha da data inscreve o gesto artístico em uma camada política e simbólica que articula memória colonial, autodeterminação e continuidade histórica. A performance foi registrada em vídeo e permaneceu acessível ao público na Casa do Benin, enquanto a instalação derivada do processo ficou em exposição até 20 de setembro, assumindo a forma de um compartilhamento aberto de pesquisa.
Ao convidar o público a acompanhar fragmentos do processo — arquivos, vestígios, imagens, deslocamentos — a residência operou como uma prática curatorial que tensiona a noção de obra concluída e propõe uma relação ativa com o passado como condição para imaginar o presente e o futuro. Nesse sentido, a residência não tratou apenas da história das famílias agoudás, mas ativou um campo relacional no qual Brasil e Benin são compreendidos não como polos separados, mas como territórios atravessados por continuidades culturais, espirituais e afetivas.



Como afirma a própria artista, a presença agoudá na África Ocidental, a partir do século XIX, não pode ser compreendida apenas como retorno, mas como reinvenção: africanos que voltam com sobrenomes portugueses ou brasileiros, trazendo consigo arquiteturas, práticas culinárias, formas religiosas e modos de vida híbridos, resultantes de uma travessia forçada. Essa circulação histórica — marcada pelo tráfico transatlântico entre os séculos XV e XIX — produziu não apenas deslocamentos de corpos, mas também transferências de saberes, técnicas e cosmologias, cuja complexidade ainda hoje estrutura relações entre os dois países.


Ao integrar essa residência à Ocupação da Casa do Benin, a curadoria assumiu a pesquisa artística como uma prática de mediação cultural e política, capaz de operar entre arquivos, comunidades e instituições. Trata-se de um exemplo concreto de como uma curadoria pode funcionar como espaço de escuta, negociação e elaboração coletiva da memória, deslocando o museu de um lugar de conservação para um território vivo de relações.


