
Habitar a travessia
Um ato de axé plantado inaugura a existência da Casa do Benin em Salvador, um lugar concebido como um espaço de confluência, encontro e travessia: um portal.
É justamente a partir dessa imagem do portal que construímos nosso percurso nessa casa: um portal que se atravessa em movimento espiralar, como a concha de um caracol branco cruzando o caminho em uma manhã em Abomei.
Fazemos essa travessia não mais assombrados por fantasmagorias dahomeanas, mas animados pela possibilidade de invenção de uma nova comunidade.
Não mais um reino, mas um lugar para chamar de casa, um lugar para retornar. E com os pés bem fincados no chão e a cabeça bem erguida ao céu, pensamos essa exposição como quem carrega consigo a própria casa.
Não foi isso que nossos antepassados fizeram, carregando no corpo seu axé e seu ilê? Não foi isso que permitiu ao Mestre Didi ir ao encontro de sua família de grandes caçadores Axipá em Ketu?
Pois é rendendo homenagem ao gesto de retomada dessa e de tantas famílias que se estabelecem na travessia, que demarcamos o território desta exposição.
Abrimos caminho assentados na escultura do Mestre, ao redor da qual se erguem as clareiras de Otun Elebogi, as esculturas de Antonio Oloxedê e Wellington Labi e as artes têxteis de Jurandy Maxodi e André Otun Laran, todos artistas do Ilê Axipá, em uma presença que marca os 45 de fundação desta casa em Salvador.
O mesmo gesto de reconexão atravessa a obra comissionada Raízes Cruzadas da agoudá Sika da Silveira. Ela derrama sobre a sala a busca por sua ancestralidade afro-brasileira, embaralhando as noções de destino e origem, deixando no ar a pergunta sobre quem vem primeiro, Agoué ou Cachoeira?
Pode ser que venha de Lagos o vento que sopra pela janela e faz vibrar o Mangue do nigeriano Oluseye. Essa forma de dança, que parece contaminar tudo à sua volta, movimenta também o diálogo com o acervo da casa, dos tecidos de Goya Lopes às fotos de Arlete Soares, que se ressignificam a partir da presença das pagnes que chegam de Cotonou, trazendo novas camadas de memórias trançadas para aerar a Casa do Benin.
E é justamente a força da tecelagem tradicional das mulheres que aterra a exposição no solo, com novos panos trazidos por Lilly Houngnihin, de Savalu, por Nadia Adanlé, de Ouidah, e por Ana Hupe, de Ibadan. E com Drusille Fagnibo a Ocupa se estende pelos muros da cidade, transbordando a nossa casa e nos lembrando que sim, o Museu é a Rua.
Ocupar é cuidar, e é através do gesto atencioso de cuidado que convidamos o visitante a habitar os percursos que desenhamos nessa travessia. Mi kwabó!
Paola Barreto
Curadora
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