Fluxos e Refluxos do Benin para o Reconcavo

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Adu Santos

no dia 22 de agosto de 2025, a galeria do Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB abriu para públicos a exposição “Fluxos e Refluxos do Benim para o Recôncavo” com curadoria de Emi Koide. a exposição foi fruto das oficinas ministradas durante a programação da Ocupa Benim Cachoeira. esse texto primeiramente apresenta as oficinas que geraram as obras que foram expostas de modo que as mesmas se aproximem de cada leitore, além disso, e principalmente, propõe refletir como a ausência de um projeto expográfico e de uma vista prévia de todas as obras para uma exposição à ser montada pode ser zona fértil para fabular sobre a montagem de exposições por meio de caminhos que excedam os modos pré-estabelecidos sobre a prática. 

a oficina “Arte Têxtil e Índigo” foi ministrada por Nádia Adanle (Couleur Indigo), Ana Hupe e Emi Koide que articularam entre participantes técnicas de índigo e têxtil, por meio das investigações que cada ministrante fez em viagens entre Benin, Nigéria, Brasil e Alemanha. na vivência participantes foram convidades a perceber o deslocamento do corpo entre territórios como movimento catalizador para o encontro, podendo ser aproximado e percebido como a trama dos tecidos tingidos por índigo que formam estampas que imprimem imagens únicas e dos bordados que promovem conexões entre um ponto e outros pontos.

Drusile Fagnibo ministrou a oficina “Pintura” em que o compartilhamento dos processos de muralismo e a metodologia de intercâmbio com jovens artistas urbanos nas cidades em que transitou, refletiu no gesto de pintar em colaboração, sendo esse gesto uma possibilidade para ocupar espaços.  a oficina reverberou em um mural feito por várias mãos onde cada participante foi convidade a perceber sua existência como repertório para produção de composições de imagens.

a oficina “Arte Contemporânea – Histórias de Família” de Sika da Silveira elaborou sobre os ecos de histórias de famílias afro-brasileiras e consequentemente a história da sua própria família. através da coletivização de objetos do acervo pessoal de cada participante, a oficina valorizou a oralidade como dispositivo de ativação da memória. fragmentos de acervos pessoais emergiram como possibilidade de construção de conhecimento coletivo, sendo a culminância da oficina uma instalação que refletiu o compartilhar de histórias como uma costura de conexões que se relacionam infinitamente como um espiral.

parto do significado de fluxo e refluxo, ambas palavras presentes no título da exposição para refletir o exercício de desmontar, especificamente, os paradigmas sobre as etapas de montagem de uma exposição de modo que a experiência aqui articulada possa ser considerada como um exercício que promove expandir a prática da montagem frente desafios que podem se aproximar dos que me deparei enquanto coordenadora de montagem de uma exposição que dependia da conclusão das oficinas para compreensão do que poderia ser mobilizado no espaço expositivo, bem como a disposição das obras em uma conjuntura de tempo que se configurava em 24 horas entre montagem e abertura.

conforme o dicionário, fluxo se refere ao movimento contínuo que segue seu curso, e refluxo, é o ato de refluir por meio do movimento contrário de um líquido ou substância que se afasta da margem e se opõe a outro, vazante.

imersa em uma certa preocupação sobre o tempo, em determinado momento lembrei das águas do Rio Paraguaçu com suas correntezas que em tempos anteriores à construção da barragem e hidrelétrica Pedra do Cavalo, se moviam para a Baia de Todos os Santos, mas hoje refluem contra a barragem como quem performa sua insatisfação frente a construção que se impõe no território sob o discurso do desenvolvimento e progresso, mas que se trata de um dos braços do racismo ambiental que altera modos de ser – estar – conviver no território.

nesse sentido, as águas contrárias do Rio Paraguaçu me fizeram lembrar das estratégias que ancestrais em diáspora incorporaram para exceder a violência e o trauma colonial. me fizeram pensar que uma exposição de artes visuais também pode ser uma estratégia de excedência sobre o mundo implicado, ainda que de modo efêmero, e sobretudo que pode se apresentar como um modo de fazer que possibilita desobedecer os paradigmas sobre montagem de exposições que a depender dos contextos podem paralisar e impedir que os refluxos gerem seus transbordos e sigam ainda que por correntezas contrárias, vazantes.

de modo prático as paredes móveis da galeria foram movidas para que no centro do espaço as pessoas pudessem circular entre as obras e entre si, o que possibilitou uma relação e visão panorâmica das obras que em sua maioria se apresentaram em têxteis e couro tingidos por índigo, por vezes suspensos no centro da galeria formando uma encruzilhada sobre as cabeças das pessoas que transitavam no espaço, e em outros momentos aplicados sobre as paredes repetindo a encruzilhada enquanto forma mas também se apresentando através de triangulações. a predominância de obras têxteis em tons de azul, possibilitou promover a sensação de imersão, como quem mergulha nas águas de um rio. 

o mural em pintura coletiva foi apresentado centralizado em uma parede dedicada apenas para a obra, permitindo ao visitante perceber sua multiplicidade de cores e imagens por meio do respiro visual, enquanto a instalação coletiva que além da parede, se estendia sobre o chão do espaço, recebia públicos que chegavam na galeria para se relacionarem com as obras que se manifestaram como a culminância das oficinas da Ocupa Benim Cachoeira.agradeço a Emi Koide e ao Áfricas nas Artes (UFRB), Paola Barreto e ao Balaio Fantasma (UFBA), a Nádia Adanle (Couleur Indigo), Ana Hupe, Drusile Fagnibo, Sika da Silveira, a cada pessoa que participou das oficinas e compartilhou suas obras para exposição e especialmente a Douglas Souza que assinou a assistência de montagem e a Julia Imbrosi que assinou a produção executiva e que viveram essa experiência comigo.

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