
Egbomi Cici de Oxalá é uma grande sábia da Cidade de Salvador e sua importância para os Ecos Africanos é até difícil de dimensionar. É ela quem simplesmente nos ajuda a situar que a pesquisa não é apenas acadêmica ou científica: ela é também e, antes de qualquer coisa, caminho espiritual.
Quando nos orienta, Vó Cici nos faz entender as responsabilidades dos nossos gesto como artistas e pesquisadores: o respeito aos mais velhos, a importância dos rituais e a performatividade da própria memória para a produção do conhecimento.
Com Vó Cici, que recebeu em 2023 o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, aprendemos que o conhecimento não está separado da vida. Nele e nela se juntam as cantigas, os idiomas, as folhas, as comidas, os modos de vestir e de amarrar os panos. Os modos de saudar os ancestrais, de tocar com os dedos o chão ou a cabeça, o jeito de olhar, as expressões faciais nagô tão características que reconhecemos aqui e também lá. Em Vó Cici, tudo isso aparece junto: corpo, memória, gesto, espiritualidade, transmissão.
Desde o primeiro projeto de iniciação científica em 2018, que foi germe do viria a ser o projeto de Pós Doutorado Entre os Voduns do Benin e os Eguns da Bahia em 2022 e o projeto de pesquisa e extensão Ecos Africanos em 2024 – 2026, Vó Cici como uma fonte primária trouxe dicas valiosas, compartilhando com todo afeto e generosidade o que ela mesma aprendeu com seus mais velhos. Vó Cici é uma mestra griot, uma griotte, como ela gosta de dizer, e a primeira sábia a nos contar sobre o Bénin, assim, com sotaque francês, sua voz doce e firme: A senhora já foi ao Bénin? Tem que ir ao Bénin!
Nossa Ocupação da Casa do Benin Fantasmagorias Dahomeanas, aconteceu sob as suas bênçãos, em novembro de 2022, quando conduziu, ainda em um cenário de pandemia, uma contação de histórias ao lado de Clarice Marcon, doutoranda em Antropologia na UFBA.
Na Ocupação da Casa do Benin Ecos da Diáspora, em 2025, Vó Cici participou da visita guiada à exposição Mãos Negras, Memórias Tecidas com as curadoras Paola Barreto e Lylly Houngnihin. Na ocasião, deu uma aula sobre as guerreiras dahomeanas Agoodjie, ensinou passos de danças que aludem à sua história, mostrou como diferentes ritmos musicais contam histórias. Falou também sobre os emblemas dos reis do Daomé presentes nas tapeçarias e conversou sobre a vitrine dos salvo-condutos ofertados pelos reis — as récades — e pelas rainhas — as estatuetas de marfim.



Como liderança comunitária e espiritual, Vó Cici esteve conosco em diversos momentos signficativos da Ocupação Ecos da Diáspora. Seja tocando agogô e cantando chulas de capoeira com Mestra Janja, seja na partilha da Cozinha Ancestral do Quintal de Yayá de sua filha Marlene da Costa, o axé de Vó Cici reverberou através do poder dos cantos, dos contos e das comidas.
Vó Cici já foi ao Benin. Oxalá possamos viajar com ela para lá novamente na próxima trienal!

