Desempacotando Lina: uma caminhada crítica fantasmagórica com Balaio Fantasma, LaDA-ESDI-UERJ e FAU-UFBA, conectando territórios do centro histórico assombrados pela presença de Bo Bardi em performance de Padmateo (BA).
O maiô vermelho de Lina Bo Bardi ou o caruru institucional no Restaurante Coaty
Padmateo
Setembro de 2024. A Folha Ilustrada publica: “Desenhado por Lina Bo Bardi nos anos 1980 e abandonado ainda em construção, complexo na Ladeira da Misericórdia, em Salvador, vai sediar Centro Cultural que retoma história da arquiteta ítalo-brasileira com a capital baiana”.
Novembro de 1960. Lina Bo Bardi assina a cenografia da Ópera de 3 Tostões, adaptação da obra de Brecht dirigida por Martim Gonçalves, aqui na Bahia. Tempo Moderno – Palco moderno, pós incêndio, de um Centro Educativo de Arte Teatral (no mais precioso amniótico pensamento moderno) que mais tarde teria nome de poeta abolicionista, Teatro Castro Alves.
Lina está na Bahia. Não sei ao certo se brinda Kaiser ou bronzeia Coca-Cola, mas se prepara pra um mergulho no mar, pede licença, ali mesmo numa triangulação poética entre Atlântico, sol e língua. Ajeita seu maiô vermelho, vai à beira, molha um pé timidamente, mas sem vergonha se arrasta no caldo. Entra no mar e arde seu olho, quase numa brincadeira de criança, a que sabe de sua própria danação, porque quer ver o obsceno do sal, a alvenaria por onde pisam e rolam areias cosmopolitas: os corais, a malandragem dos peixes e as arquitraves marítimas. É quase verão na Bahia e Lina está no mar.
Foi Martim Gonçalves, o diretor, que a levou ao Solar do Unhão pela primeira vez em 1958, tendo inicialmente a ideia de um complexo teatral, um anexo da Escola de Teatro. As curvas de Diógenes Rebouças, abrindo a Av. Contorno, fariam cair aquilo que mais tarde seria um dos grandes postais da cidade, não fosse o desejo de Lina. Foi erguido sobre direção dela o Museu de Arte Popular, mais tarde MAM.
Em seu ensaio “Cinco anos entre os brancos”, Bo Bardi pontua que “teve de enfrentar, desde o começo, a hostilidade de uma classe cultural constituída em moldes provincianos, a celebridade nacional de artistas reunidos em grupos folclóricos (dado o caráter turístico da cidade) e a imprensa local”. Foi essa pressão de um poderio oligárquico, frente ao desejo socialista e expansivo da arquiteta (leitora de Gramsci), junto ao Golpe Militar de 64 que a fizeram sair da Bahia, deixando pra trás uma gerência moderna, num museu pouco pensado para conservar (dada também a ausência de recurso), mas totalmente inserido na ideia glissantiana de museu tremblement, um arquipélago, um espaço pedagógico, de uma temporalidade não mais linear.
Mais tarde foi condecorada com a medalha 2 de Julho, por Mário Kertész, sobre a efeméride: “agente viva, ativa, na desprovincialização da cultura baiana”, como num pedido de desculpas, um pedido de retorno, que a levaria à Misericórdia. Chegamos ao ponto central desse texto: A misericórdia. Ao Projeto Piloto Ladeira da Misericórdia (PPLM), no Pelourinho.
Há 2 anos chegou uma instituição sudestina na Bahia. Há mais de 2 anos chegaram várias instituições sudestinas. Há pouco mais de dois anos a Liberatum foi cancelada nas redes, em Salvador, por racismo e Beyoncé entrou prateada no Centro de Convenções, imantada com a bandeira da Bahia. Essa-galeria (vou aqui poupar os nomes) se situou na rua Chile, Aquela-outra, no Carmo, e esse espaço agora – o centro cultural dito na Folha de São Paulo – se situará na Misericórdia.
Pergunto inicialmente: Qual petróleo está escondido debaixo do chão da Bahia, somente recém descoberto, depois de muitos anos, de um hiato imposto, na margem de qualquer circuito do mercado das artes? Será nossa ministra baiana? O sucesso do Black Money? Ou tudo que a Queen B toca vira prata?
Aqui abro um ponto, não blasé ou manifestando repulsa a instituições estrangeiras, os headhunters do cognitariado garantida pelo sistema de arte neoliberal, ou contra a tardia visibilidade nordestina/baiana/soteropolitana, e nem mesmo contra a reativação de patrimônios públicos, antes abandonados, mas tensionando os interesses, observando acordos e estruturas, que sob máscaras colaboram com o processo gentrificador. Pontuo aqui o nosso lugar de negociação enquanto artistas/curadores/críticos e receptores baianos, para que todos os processos sejam providos em ética, digo, interlocução/mediação e não extrativismo cordial.
Entenda esse texto como um: viva as conexões, os fluxos desviados e descentralizados, o patrimônio vivo, mas também como um “a bahia tem um jeito”. Esse texto perpassa dois pontos de vista: o que dá boas-vindas ao novo capital e outro que reflete viralatarias anestesiadas, pelourização na entrega dos patrimônios públicos e o silêncio neoliberal da classe artística.
Sempre desconfio que há um “ultra-modernismo” nas instituições e um óbvio interesse lucrativo, ainda que sacra e ordinariamente se insiram num tom filantrópico. Pura análise do inconsciente da cidade, em que o próprio pacto interesseiro entre ambas as partes (público-privado) já suscitam o objetivo comum: os stakeholders. O que chamo de “ultra-modernismo” é o retorno da antropofagia, agora não mais exógena – o som de guitarra da gringa numa guitarra baiana na Barra-Ondina, ou toda a Tropicália, a cultura moçárabe e Jimi Hendrix, ou toda a essência do Mangue Beat e os cérebros caranguejos, Cabaret Voltaire e Noigandres, Gauguin, Marinetti frenético nos saraus futuristas do Senhor do Bonfim, Macunaíma. Não se trata mais de comer de fora pra cuspir aqui dentro, sobre o filtro de nossa cultura, mas comer daqui de dentro e expelir pra fora. Não mais comer a cultura num sampler centrífugo, mas devorar o outro e sua outridade, como a antropofagia tupi modernista ampliada, um uberabaporu. A matéria lançada há um tempo pela Revista Piauí, sobre “O homenageado Oculto”, ilustra bem essa prática. Na ocasião o artista foi celebrado na renomada feira Rotas Brasileiras, em São Paulo, com uma mostra individual, mas sequer foi avisado. É também o que Suely Rolnik chamará de “Antropofagia Zumbi”, a subjetividade adormecida e vendida, após ter sido flexível na década de 60 “num processo de experimentação radical […] para criar linhas de fuga ao regime de inconsciente dominante” (contracultura), para um indivíduo “aparentemente coletivo”, autopublicitário, hipnotizado pelo efeito fantasmagórico de suas próprias imagens, através da instrumentalização (e globalização) capitalista do ato fágico. Numa grosseira comparação, o que digo é que se no ideal manifesto antropófago do modernismo brasileiro o movimento era duplo: comer e cuspir, agora, no “ultramodernismo” neoliberal o movimento segue anestesiadamente o seu fluxo: come-se, digere-se, caga-se (e que os estercos sejam rentáveis adubos de uma nova safra).
Uma das máximas de Oswald de Andrade é mantida, agora em sua radicalidade desvairada: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.
É só por vias dos “Zumbis hiperativos” da Rolnik ou da “Anestética” de Buck-Morss que podemos entender o silêncio que nos paira, digo, sociedade soteropolitana, em relação a essa tríade negociável estabelecida entre a instituição referida – o poder público – o povo. Num primeiro plano há uma baixa autoestima programada da classe artística/curatorial e um burnout, causada pelo déficit do fomento a nível federal e local. Em segundo lugar a ideia do “onírico” e “crescente atrofia da experiência” em Benjamin, que faz com que atrelemos os nossos sonhos ao sonho da elite. E mais. A naturalização da tomada do Pelourinho. Esta é a anestesia dada pelo cansaço e pela tragédia e o desejo da “servidão voluntária”, como visto desde Suely, às atualizações foucaultianas feitas por Byung-Chul Han em “Psicopolítica”. O desejo pelo assombro da fantasmagoria burguesa do produto, o BDSM mercadológico, consentido. Permitimos ser assombradas pelo fantasma, pois queremos que ele nos possua e, na nova lógica neoliberal, se reencarne em nós, transformando-nos no próprio produto a ser cobiçado. No silêncio, nós falamos a voz do fantasma incorporado. Somos nós que enveredamos por um fetiche do fetiche, pois ele atua diretamente na economia psíquica e ainda que não cumpra, em vias de fato, um avanço democrático e geral, nos saúda com o aumento de estima.
Há uma hipnose silenciosa. A relação Instituição – Classe se dá pela ideia de reificação marxista e para Adorno “toda reificação é um esquecimento”. Em sua teoria a rememoração da história é um caminho na disrupção da “história dos vencedores”. Esse presente ensaio nada mais é do que uma rememoração dos verdadeiros intuitos éticos arquitetônicos de Lina Bo Bardi, que usada agora como etiqueta numa área violentada pela chaga da gentrificação, é transformada em qualquer Givenchy ou Défiler, peça rara da Balenciaga nos brechós da Barroquinha. Repito: não me manifesto contra a network, contra as necessárias descentralizações, mas contra o slogan errado, e os veraneios disfarçados de “mediações baianas”, quando na gentrificação de um dos lugares mais mal-tratado na história do Brasil e mais visitado, na Bahia, por turistas, o Pelourinho. É Made In Bahia, pra atualizar a liquidação de Tom Zé. Digo aqui da ausência de efetividade ao que se propõe, a perpetuação safada da miséria, o esquecimento, e mais – a manutenção colonial gentrificadora.
Fato é que há uma publicidade rentável dessa terra, fortalecida, óbvio, pelo turismo. O perigo complexo é a tenuidade entre o intercambiável e o político, o que transforma a galeria numa aliada Zona Autônoma Temporária, a um interesse de veraneio (Landscape, Ócio Criativo). Explico: Ao vir de um terreno confortável e se estabelecer em um lugar completamente dual, como é o Pelourinho – entre a miséria e a poesia – em quais agendas devem ocupar-se os intercâmbios institucionais: A cidade alta ou a cidade baixa? O que se omite nas relações? Quem vai ser mediado e quem vai mediar? O que será incorporado – como alegoria – em si mesmo (vide Moacir Soares)? Estou falando da Pelourização das instituições ou das fantasmagorias benjaminianas. A instituição antropófaga torna-se um QG para comer um vatapá, receber seu axé, sambar miúdo e ir embora.
Encaremos o Pelourinho como um grande Manhattan e a Rua Chile como a nova Wall Street e por supuesto cairemos exatamente na aura do turismo-terrorista. Encaremos o Pelourinho como a Paris Haussmaniana em plena Exposição Universal e o novo espaço Coaty como a grande assombração do flanante.
Mas voltemos à Folha. Há um tom heroico jornalístico como se a Instituição (que ocupará o espaço, incialmente, por 10 anos) fosse responsável por trazer de volta à Bahia o desejo moderno e popular, o sonho de Lina, que fora abandonado e entregue às traças. O policiamento constante na ladeira (impedindo a entrada), a placa “estacionamento particular” ou todo o movimento artístico ao longo desses anos, sob o desejo de reativação do espaço público para a cultura baiana ou as resistências da zona histórica (a exemplo dos projetos do Ativa, os quaseilhamentos com Isaac Julien, as intervenções festivas do FIAC, a requalificação elétrica e hidráulica do espaço, do bolso do projeto InstruMentes, o Coletivo Que Ladeira é Essa? etc…) não apareçam no jornal como uma sede baiana pelo seu patrimônio, uma denúncia do descaso do poder há anos com a escuta da classe artística (a não ser no sotaque paulista). Temos que receber pacificamente o tom da saga dos heróis – a prefeitura / secretaria de cultura presenteando um espaço público internacionalmente relevante, para uma “salvação” arquitetônica – a Pelourização.
Abro aspas para a fala de Perrotta-Bosch, especialista em Bardi, que traz na matéria uma ótima espinha, não sei se de forma inocente, mas que traduz exatamente a sinuosa parceria: “Seu projeto [o da Lina] era evitar que Salvador se convertesse em uma ‘cidade sorvete’, como dizia. Lina estava preocupada com o que via em Roma ou Veneza, onde os moradores estavam sendo jogados para fora das cidades para a chegada de uma classe internacional”.
Veraneio. Pelourização. Ultra-Moderno.
É 2025. É verão. Lina usa um maiô vermelho e pede licença para entrar no mar. Seus espaços desenhados na ladeira da Misericórdia com intenção de recuperar a habitação e gerar renda para moradores na zona histórica, com 7 unidades residenciais, em três imóveis, (2 quartos cada), térreo comercial e o restaurante construído ao redor de uma Mangueira, com um palco arredondado onde tocaria João Gilberto, agora são, por pelo menos 10 anos, da Instituição privada presenteada.
Há um tom de produtores de civilização, quando a própria Lina buscava (em suas palavras): “tirar da palavra o sentido áulico retórico que a acompanha. Civilização é o aspecto prático da cultura, é a vida dos homens em todos os instantes”. Ou a “Restauração Crítica”, que tem como base o respeito pelo rastro da história. Ou a exposição de arte popular (Salvador, Recôncavo e Polígono das Secas) em um museu, longe do folclore antropológico, mas criando uma instituição a serviço do povo. Ou janelas anarquitetônicas, que poeticamente arregaçam o espaço pra massa, e são como a garganta aberta do boca-do-inferno. Ou os saberes do labor sertanejo, compartilhados para cadeiras de descanso. Ou uma fúria urbanística contra a oligarquia, contra gentrificação, contra-elite. Ou a certeza de que é o estatal que dá (nas palavras dela) “aquela ‘validez’ que somente as atividades públicas permitem, distintas (mesmo quando ‘público’ não significa coletivo) da iniciativa privada, cujos interesses (disfarçados) são sempre de lucro ou publicidade”.
Grandiosa sábia Lina Bo Bardi, de maiô vermelho no mar da Bahia, aguarda um Caruru de abertura da Instituição, que promete ser a sua voz ativa novamente na Zona Histórica Soteropolitana.
Analisemos a semiótica dos últimos parágrafos quando o jornal faz uma vista zoneada, da vizinhança do Coaty e pontua que ali está presente os hotéis de luxo Fasano, Ferra Palace e o futuro Rosewood a ser instalado no importante Palácio Rio Branco e o novo centro gastronômico e joalheiro _ gourmet _ no mais novo reformado Palacete Tira Chapéus. Num P.S. abre aspas ao então Secretário de Cultura da Bahia: “Não é por acaso que o projeto da Lina vai se materializar agora também, destravando uma visão de centro histórico, que é um desafio em todo o mundo, e também um processo terapêutico”.
Lina diria com sotaque ítalo-brasileiro: É de cair o cu da bunda. Diria mais uma vez: É DE CAIR O CU DA BUNDA.
E sussurrando: é de cair… o cu… da bunda…
Mas não há surpresa na construção eficaz da narrativa jornalística da Folha de São Paulo, em ziguezaguear uma grande epopeia da saga do herói e deixar para o último parágrafo uma realidade gritante, da medalha honrosa, defendida (e patrocinada) claro, de forma torpe, pelo poder público. Acho interessantíssimo que as alegorias referentes, os espaços luxuosos, sejam a cereja do bolo, pra colocar o ponto final na legitimação do suntuoso projeto vindouro, nos abrindo a certeza do futuro repeteco ao centro histórico de Salvador, o sonho consumado da gentrificação.
A Casas Conceito, evento anual, tem lema e ideologia parecidas com a referida Associação Cultural Sem Fins Lucrativos, a de transformar espaços arquitetônicos importantes em um grande circuito de design, arte, cultura e sustentabilidade. Em 2024, por exemplo, a mostra deixou para a Rua Chile, com a reforma do histórico Palacete Tira Chapéus um importante centro gastronômico, hermético, hipervigiado e refrigerado, para atender a comunidade local, onde os capoeiristas poderão valer-se de um ótimo croissant do renomado chef Claude Troisgros para reabastecer as energias da dança-luta, as baianas de acarajé poderão tomar um bom café carioca no Três Corações ou Chocolat Du Jour, os mendigos fumarão um bom cigarro no fumoir da Jamm Charutos e os abrigados brindarão bons vinhos na Enoteca The Latvian.
Em 2025, o mesmo evento teve como alvo outro prédio histórico na Rua Chile, transformando-o em espaço gourmetizado, com piscina no rooftop, sobre uma máscara de “democratização e acesso à arte, design, arquitetura e cultura”. De igual forma, no mesmo ano, o IPHAN autorizou o aterramento do sítio arqueológico do antigo e importante Teatro São João, destruído num incêndio em 1923.
O texto finda com a fala de Lina, como se quisessem numa sessão espírita demoníaca e teatral da Universal, balançar a cabeça da arquiteta num gesto afirmativo: “Na prática, não existe o passado. O que existe ainda hoje e não morreu é o presente histórico”. É um jeito bonito de se encerrar um texto sobre gentrificação, com um pensamento que atravessa uma “dívida impagável” e a memória abalada.
[Aqui, do futuro, dou em primeira mão, a essa reportagem do passado, um furo de notícia, do que ainda está por vir. Também convido a Instituição Cultural e os agentes públicos de cultura e turismo, para partilhar o que mediunicamente estou vendo: O teto da Igreja de São Francisco, no Pelourinho, desabará, acreditem ou não, e cairá fatalmente sobre a cabeça de uma turista, deixando mais cinco feridos, de forma trágica. Mas, talvez, agora que estão cientes tarologicamente da situação, é possível evitá-la. Sugiro: vendam rapidamente a igreja, transformem-na ligeiramente em um hotel de 5 quilates, onde a sacristia terá uma suíte presidencial para as transas dos recém-casados e as galerias, próximas a cristo crucificado, transformadas em rooftop, com um ótimo restaurante, servindo entre as opções de menu pão e vinho. Essa será a solução mais rápida, talvez, da preservação, salvação do patrimônio público soteropolitano e de mais uma vida esmagada pelo Pelourinho.]
É Novembro de 1960. “A Ópera dos três tostões” dirigida por Martim Gonçalves de uma adaptação brechtiana, narra a história de uma Central de Mendigos, criada pelo Sr. Peachum, sem fins lucrativos, ofertando roupas apropriadas e definindo na geografia da cidade o lugar apropriadíssimo de se pedir esmolas. A Ópera inteira é uma grande saga entre o Empresário e Mack Navalha, um dos maiores ladrões de Londres, que se casou com sua filha (está aí o grande trauma do negócio). O enredo segue titubeando entre subornos e parcerias da esfera pública (Cherife Tiger Brown) e privada (Sr. Peachum), prostitutas, prisões, romance, traição, até o enfim enforcamento do bandido. Ele diz em suas últimas palavras:
MAC – É, não vamos deixar as pessoas esperando. Minhas senhoras, meus senhores, estão vendo extinguir-se o representante de uma classe em extinção. Nós, pequenos artesãos, que trabalhamos com o bom e velho pé-de-cabra, as modestas caixas dos pequenos comerciantes, estamos sendo engolidos pelos grandes empresários, atrás dos quais estão os bancos. O que é uma gazua comparada a
uma ação ao portador? O que é um assalto a um banco comparado à fundação de um banco? O que é o assassinato de um homem comparado a contratação de um homem? Concidadãos, aqui me despeço de vocês. Agradeço por terem vindo. Alguns de vocês me eram muito caros. É uma prova inequívoca de que o mundo continua o mesmo.
Ao fundo o cenário e figurino de Lina Bo Bardi.
Ao fundo, a arquitetura de Lina Bo Bardi.
Pano cai. Aplausos.
Padmateo vive e trabalha entre Jequié e Salvador (BA). Artista-pesquisadora, curadora, crítica e ensaísta. Mestranda em Artes Cênicas, na linha de performance, pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Crítica e Curadoria pela PUC-SP, bacharel em Artes pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Salvador. Editora da revista Do Hiato, Litígio e curadora da Bienal de Performance da Bahia. Recentemente foi vencedora na 69ª edição do Salão de Artes Visuais da Bahia, no concurso Ensaísmos Serrote do Instituto Moreira Salles e no Prêmio Braskem de Teatro. Ocupou o Museu de Arte Contemporânea da Bahia e a Casa1145 com a exposição individual Fantasmagorias Brxsil.

