
Museologia do Fogo Aceso: cozinhar, ocupar e pertencer
AZD (Andressa Lima Batista)
A cozinha foi um território que respirou conosco. Muito antes das falas, mesas e mediações, a preparação do fogo já anunciava outra maneira de ocupar a Casa do Benin: aquecer, nutrir, acolher. Ao longo da Ocupa, a cozinha se afirmou como útero. Um lugar de gestação de ideias, de corpos presentes e de alianças que se constroem no cotidiano.
Na coordenação de produção, fui percebendo que organizar a cozinha significava também organizar uma ética. As listas, as escalas, os horários, as panelas — tudo fazia parte de um pacto de cuidado. Não se tratava apenas de preparar refeições. Tratava-se de garantir condições para que as presenças permanecessem. Comer junto tornou-se ato político, gesto museológico e prática de memória.
Os preparativos começaram antes do fogão. Fomos à Feira de São Joaquim, esse coração pulsante da cidade, onde o mar encontra as ervas e as histórias (en)cruzam entre os corredores. Voltamos carregando mais que ingredientes: voltamos com vínculos e aprendizados.
Comida de quilombo é comida de fartura. Fartura de partilha, de permanência, de mundo possível.
No sábado de nossa 2ª semana, após o desempacotar Lina com a PadMateo, percorrendo o centro histórico e ativando memórias, chegamos ao pátio da Casa do Benin. E no almoço, a Cozinha das Tradições (LaDA/ESDI/UERJ) entrou em ação. Vimos a cozinha se tornar espaço de hospitalidade e escuta. O convite já cantava a pedra: “a comida de verdade está aqui” na feira! Entre os preparos, a cocada ancestral, receita transmitida entre gerações, que reforçou a dimensão intergeracional do encontro: memória servida e compartilhada.
A mesa se compôs de sabores construídos a muitas mãos. Folhas, raízes, grãos e temperos que traziam a marca da feira e da inteligência de quem cultiva. Cozinhar, ali, também era pesquisar. Entre aromas e conversas, discutimos ancestralidade, território, cidade e permanências. A museologia aparecia em sua forma expandida: não como vitrine, mas como convivência. Uma ideia de museu que se materializa na mesa, nos utensílios, na divisão dos afazeres e na escuta. Corpo a corpo. Rastro a rastro. Prato a prato. Memória a memória.
Essa reflexão se aprofundou nas rodas e conversas com diferentes territórios e lideranças. Estiveram presentes, entre outras pessoas, Mestre Joelson (Teia dos Povos), Conceição (Associação de Pescadores de Maré), Leonidia Insfran (Quilombo Dona Bilina), Emerson Pires e Marcelo da Paz (Caxambu do Salgueiro), Marlene Rodrigues Medrado (Ilê Axé Omin Otá Odara), Elvira Saterê Mawé e Ingrid Pena, além de Zoy Anastassakis, Paola Barreto e Mestra Cristina do Jongo Eleda. O debate atravessou alimento, segurança, tradição e autonomia, conectando prato e território como dimensões inseparáveis.
Coordenei fluxos, prazos e imprevistos. Sobretudo, coordenei relações. A produção cultural se mostrou, ali, como prática de costura entre pessoas, saberes e tempos. Cada refeição reafirmou um compromisso fundamental da Ocupa: fazer da partilha um princípio político.
No fim, para mim ficou evidente: a cozinha não foi suporte da Ocupa.
Foi seu centro vital. Seu coração quente. Seu útero pulsante.
É desse lugar que sigo pensando e fazendo. Entre o cuidado e a organização. Entre a panela e a ideia. Cozinhar, produzir, ocupar e lembrar fazem parte do mesmo gesto. Um gesto que insiste em produzir encontros e criar possibilidades de mundo.
titulo da galeria























