Cineclube da Cobra

Cineclube da Cobra: o cinema como um percurso.

Letícia França

Há algo de muito especial na reunião de diversas pessoas em uma sala escura, refrigerada, em torno de uma mesma projeção em uma superfície plana e vertical. Pode ser o som, que talvez pela disposição de seus amplificadores convoca nossos sentidos à presença. Ou mesmo a sequência de planos cinematográficos, montados, colorizados e ritmados de forma que há um deslocamento virtual em torno daquela narrativa. Produzir um cineclube que atravessa caminhos é se permitir viajar. 

Digo isso porque quando penso no Cineclube da Cobra na II Ocupa da Casa do Benin, consigo ver uma figura que se desloca entre o Atlântico, de forma sinuosa – algo semelhante a uma cobra e um rio. Me lembrou Boiúna.

Nossa primeira exibição nesta edição da Ocupa recebeu a estreia do longa-metragem Sua Majestade dos Mares e dos Oceanos, de Michel Meyer (Benin) e tivemos como mediadora a produtora do filme Lylly Houngnihin, no dia 12 de agosto na Sala de Cinema da UFBA. O documentário fala sobre a trajetória de Dada Daagbo Hounon Hounan II, Chefe Supremo do Vodun por hereditariedade e figura presente nas relações contemporâneas entre o Brasil e o Benin. Como espectadora – mais do que como produtora – fiz esse trajeto para conhecê-lo, reconhecendo costumes que perpetuo, gestos que observo de meus mais velhos e palavras versadas tão comuns aos meus ouvidos, mesmo sem ainda ter pisado naquele chão. 

O mesmo filme foi exibido no Cine Teatro Cachoeirano em nosso serpentear para o Recôncavo. As terras onde os voduns dos centenários e mais antigos terreiros Jejes da Bahia puderam prestigiar um pouco do culto do lado de lá. Marcando esses fluxos, houve ainda a exibição de Benin do Lado de Cá no espaço cultural Muleki É Tu, um curta-metragem documental de Tenille Bezerra e de Mateus Aleluia, que com sua voz singular nos conta sobre a história dos toques e dos cantos dos voduns em suas terras de origem, numa travessia etnográfica, musical, mas, sobretudo, poética. 

Versando ainda sobre esses fluxos, retornamos à Sala de Cinema da UFBA para assistir ao WIP (Work in Progress) do longa-metragem Mulheres Negras em Rotas de Liberdade, de Urânia Munzanzu. O filme é um registro documental resultado das experiências de Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Preta Rara, Luedji Luna, Érica Malunguinho, Mirtes Renata e Urânia Munzanzu, enquanto refazem e (re)significam as rotas originais do tráfico de escravos itinerantes através de países africanos: Gana, Togo, Benin, Nigéria. Através dessas mulheres e suas experiências, refletimos sobre ser “um corpo no mundo”, com cor, corte, e a história de nosso lugar. 

Fechando um ciclo de trânsitos virtuais provocados pela experiência cinematográfica, nos encontramos pela última vez no Centro de Estudos Africanos e Orientais (CEAO), no Dois de Julho, em Salvador. Conduzido pelo grupo de pesquisa Anarqueologias do Sensível (GAS), sob curadoria de Marcelo Ribeiro, o Cineclube da Cobra encontra o Anarquivo e reflete sobre os sentidos disputados dos cinemas africanos com os filmes África em Sena (Paulin Vieyra e Mamadou Sarr, 1955) e Nossa África em Cena (dir. coletiva, 2017). O primeiro filme foi produzido pelo Grupo Africano de Cinema, e gravado em Paris porque na época ainda era proibido realizar filmagens no continente africano. Pergunto, então, quem tinha o direito de proibir ou chancelar a fabulação de imagens? Nossa África em Cena é produzido por um coletivo senegalês da Université Gaston Berger e reflete uma série de questões sobre o que podem ser os cinemas africanos hoje. Entre “Seine” e “scène”, há uma margem, um rio e sua luz.

Ao contrário do que se imagina, enquanto produtora, fui conduzida mais do que conduzi a trajetória do Cineclube da Cobra. Viabilizado por muitas mãos e muitas trocas, vimos o que há de bonito no fazer cinematográfico: o coletivo. Abraço as reflexões provocadas e conduzidas por Lylly, Emi Koide, Paola Barreto, Marcelo Ribeiro, Denise Carrascosa, e por mim, e por tantas outras vozes que fizeram esse percurso conosco – no todo ou em partes. Retorno àquele ambiente, cercada por tantos outros olhos atentos e ouvidos abertos, encantada pelos cânticos voduns, suas vozes fortes e pelos corpos em movimentos que, assim como o meu, sabem serpentear. 

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