
Visita ao ateliê de José Adário dos Santos
Não se tratava de conhecer o diabo. Nem tampouco de uma estadia no inferno. Esqueça esses referenciais cristãos. A visita do grupo de pesquisa e extensão Balaio Fantasma, coordenado pela professora Paola Barreto, ao ateliê de José Adário dos Santos, outrora chamado de Zé Diabo (tempos em que o racismo mostra sua face também através do sincretismo), foi um chamado para referenciar aqueles que garantem o caminho: Exu e Ogum.
Em cima de uma pedra, passagem entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa da província de Salvador, ali mesmo no meio do caminho de um lugar que convencionou-se chamar de Ladeira da Montanha, ou Ladeira da Conceição da Praia, está o seu ateliê. Na cartografia oficial da província de Salvador, Ladeira Barão Homem de Melo, vestígios insistentes do colonialismo.
O Balaio Fantasma estava a fazer visitas a alguns ateliês e artistas pela cidade acompanhado da também artista e pesquisadora beninense(?) professora Rossilda (?). Ao adentrarmos no ateliê de Zé Adário, fomos recebidos muito gentilmente por ele, sua assistente e um sobrinho, com café quente, água fresca e um tanto de cachaça. Nos apresentamos. E ele, em solenidade nagô, também se apresentou: “Sou José Adário, filho de Ogum. Alágbedé – o Ferreiro dos Orixás”.
Daí percorremos cada dobra de ferro transformadas em esculturas e artefatos, usados como ferramentas religiosas, mas também como obras de arte. Seu Adário é uma das principais referências na confecção de ferramentas para Orixás no Brasil. E também se tornara um artista desejado por galerias, museus e colecionadores. Isso revela a complexidade de sua obra, do que se chama genericamente de arte negra.
Após sermos apresentados ao seu acervo que ocupa os dois pavimentos do ateliê, nos sentamos ao redor de uma grande mesa e Seu Adário pediu para que seu sobrinho pegasse uma obra que ele acabara de concluir. Prontamente foi atendido e logo estávamos com ele segurando uma complexa ferramenta que envolvia os orixás Ogum, Oxóssi e Ossain. Ele teve a generosidade de comentar aquela obra para todas nós, de como ela nasceu, de como ele próprio se tornou um sacerdote-artista.
Tal qual foi a surpresa da professora Rossilda ao ouvir e ver José Adário. Seus olhos brilharam e ela então relatou que sua família era de Ogum. Apertou a minha mão, nos entreolhamos. Eu, um filho de Oxóssi. Ogum e Oxóssi caminham juntos. Diz-se: “Quando um tira o pé, o outro bota”. A África estava aqui. Não ali pertinho. Mas aqui. Estávamos em família.
“Nesse Balaio cabe é coisa” – sempre nos diz Paola Barreto, essa filha de Oyá, esposa de Ogum.
Nesse espírito nos despedimos de Seu Adário. Nesse espírito seguimos até hoje.






























