As Ganhadeiras de Itapuã

Encontro, ancestralidade e produção de sentidos: reflexões a partir do Ocupa Benin


Por: Lilian Stender

O encontro com as Ganhadeiras de Itapuã, no contexto do evento Ocupa Benin, configurou-se como uma experiência profundamente significativa, marcada pela ancestralidade, pela troca de saberes e pela intensidade das emoções compartilhadas. Trata-se de um espaço de escuta e reconhecimento, no qual os conhecimentos tradicionais, transmitidos oralmente por mulheres negras, ganham centralidade e legitimidade, em consonância com o que Lélia Gonzalez denomina de produção de saberes a partir de uma perspectiva afro-latino-americana, na qual a experiência vivida é fundamento epistemológico.

A presença de Ari Pescador, presidente da Colônia de Pescadores de Itapuã, atuando como mediador da roda de conversa, revelou-se fundamental para a construção e aprofundamento do diálogo. Ao trazer à cena memórias, experiências e vivências compartilhadas com as Ganhadeiras, Ari contribuiu para a tessitura de uma narrativa coletiva enraizada no território de Itapuã. Suas intervenções possibilitaram a evocação de práticas tradicionais, como a venda de peixes, a comercialização de “comidas afetivas” e as atividades de “ganho” realizadas nas proximidades do Abaeté, evidenciando um modo de vida sustentado por saberes ancestrais e relações comunitárias. Tal perspectiva dialoga com a noção de território enquanto espaço de memória e produção de conhecimento, conforme discutido por Milton Santos.

Ao sentar e ouvir as narrativas das mestras Ganhadeiras de Itapuã, evidencia-se a potência da mulher negra enquanto sujeito histórico e agente cultural. Suas trajetórias revelam percursos atravessados por desafios desde a infância até a vida adulta, ao mesmo tempo em que expressam processos de resistência, ressignificação e reconstrução da autoestima. Nesse sentido, a experiência dessas mulheres pode ser compreendida à luz das reflexões de Beatriz Nascimento, que destaca a centralidade da memória e da ancestralidade na constituição da identidade negra, especialmente no que se refere às estratégias de continuidade cultural e resistência.

Observa-se, em muitos relatos, que é na maturidade que essas mulheres redescobrem, por meio da arte — especialmente do canto —, formas de existência que as reconectam com sua identidade, sua história e sua força coletiva. Tal processo pode ser interpretado como uma reativação de memórias ancestrais, que, conforme aponta Amadou Hampâté Bâ, são preservadas e transmitidas sobretudo pela oralidade, constituindo verdadeiras bibliotecas vivas.

Essas mulheres não apenas representam um patrimônio cultural imaterial, mas também atravessam histórias individuais e coletivas. Nesse sentido, destaca-se a presença de Lucinha, uma das fundadoras do grupo, cuja participação em um momento marcante da minha vida pessoal — meu casamento, ocorrido há cerca de trinta anos — evidencia a dimensão afetiva e histórica dessas relações. Soma-se a isso o fato de que o produtor musical Salviano filho envolvido nesse contexto compartilhou o mesmo período de formação acadêmica na Universidade Federal da Bahia (UFBA), reforçando as conexões entre trajetórias pessoais, artísticas e institucionais.

Nesse movimento que pode ser compreendido como um “tempo espiralar”, marcado por reencontros, continuidades e circularidades, evidencia-se uma compreensão de tempo que se distancia da lógica linear ocidental. Tal concepção aproxima-se das cosmovisões africanas, especialmente da tradição bantu-congo, na qual o tempo é concebido como cíclico, relacional e ancestral. Essa perspectiva dialoga com as reflexões de Fu-Kiau Bunseki, que compreende o tempo como um movimento contínuo entre passado, presente e futuro, interligados pela ancestralidade e pela experiência comunitária.

O Ocupa Benin, nesse contexto, tornou-se um espaço de convergência dessas temporalidades e histórias, mediado também pelo Balaio Fantasma, na pessoa da Doutora Paola Barreto, na qual trouxe profundas reflexões de tudo que foi exposto e trazia provocações que eram discutidos e analisados por todos. Nesse mesmo cenário, ocorreu o encontro com as artistas africanas Nadia e Lylly, que compartilharam suas experiências artísticas e de vida, ampliando o diálogo intercultural e fortalecendo os laços entre territórios afro-diaspóricos. Esse encontro, enfatiza as trocas culturais e a circulação de saberes entre África e diáspora.

Ao longo desse processo, instaurou-se um sentimento coletivo de pertencimento, como se todos os presentes compartilhassem uma mesma linhagem ancestral. No fluxo simbólico do xirê — compreendido aqui como um movimento circular e contínuo, que rompe com a linearidade do tempo —, vivenciaram-se momentos de emoção, expressos por meio do riso, do choro e do canto. Tal vivência reforça a dimensão performativa e ritualística da cultura afro-brasileira, conforme apontado por Muniz Sodré, ao tratar das formas sensíveis de produção de conhecimento.

O encontro foi finalizado em uma atmosfera de celebração e conexão, na qual a coletividade se reconheceu como parte de uma grande estrutura orgânica, semelhante a uma árvore frondosa: enraizada na ancestralidade, sustentada por um tronco comum e continuamente produtora de frutos. Tal metáfora sintetiza a força, a continuidade e a vitalidade das culturas afro-brasileiras e afro-diaspóricas, reafirmando sua importância na constituição da sociedade contemporânea.

Encontro


REFERÊNCIAS

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História geral da África I: metodologia e pré-história da África. 2. ed. Brasília: UNESCO, 2010.

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo. São Paulo: Ubu Editora, 2021.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

FU-KIAU, Bunseki. African cosmology of the Bantu-Kongo: principles of life and living. Nova York: Athelia Henrietta Press, 2001.

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