Arte Textil e Índigo

Narrativas que vestem ancestral: o costurar das memórias transatlânticas

Por Tauan Carvalha

A frase “Arte dá trabalho”, tomada aqui como provocação, torna-se o ponto de entrada para discutir as tensões e potências dos processos artísticos relatados. Em um contexto de curadorias e produções estéticas, artísticas e políticas que atravessam feridas coloniais, construir arte não é apenas “produzir uma obra”, mas se engajar num processo profundo de reencantamento, reterritorialização e responsabilidade afetiva e política. 

Assumimos um compromisso com vitalizar narrativas desencantadas por meio das encantarias, feitiços, ebós, mandingas e museologias, encontros e desencontros, para promover processos de reativação do que estava adormecido enquanto conceito e prática ou apenas estava esperando pela nossa ação emergente de sacudimentos moleculares de energia do axé como força motriz do nosso labor.

Sob esse ponto de vista, o trabalho da arte se expande para além da dimensão estética: ele é também ancestral, pedagógico, comunitário e espiritual. Como afirma Beatriz Nascimento, o corpo afrodiaspórico em ação é um Corpo-Documento, carregado de histórias não-ditas e potências de futuro. Assim, a proposição de uma atmosfera artística, de curadoria e experimentação tornam-se também um ato de leitura e tradução de memórias inscritas nos corpos, nos territórios e nas águas, porque Ocupar é cuidar e estamos tratando de ocupar nossos territórios, com muito caos, suor, labor e com a ancestralidade nos alumiando e guiando, com altivez e ginga como políticas de bem viver.

Essa perspectiva é reforçada pela noção de Escrevivência, cunhada por Conceição Evaristo, que inspira a prática artística como um gesto de contar e costurar vidas frequentemente invisibilizadas pelos discursos hegemônicos da arte e como podemos cocriar geografias afetivas de vitalidade, prosperidade e bem viver para suas narrativas que ativam e sustentam a ancestralidade em suas múltiplas dimensões. A oficina de Arte Têxtil e Índigo, nesse sentido, atuou como um terreiro de memória, em que as práticas artísticas e curatoriais funcionaram como formas de resistência e reinscrição de subjetividades negras e LGBTQIAPN+ nas paisagens culturais e simbólicas da Bahia e do Benin.

Já o conceito de Tornar-se Imensurável, proposto pela artista e psicóloga Castiel Vitorino Brasileiro, nos convida a perceber que esse trabalho da arte não se encerra em métricas institucionais ou resultados quantitativos. O que se tece, aqui, são afetos, fluxos, orikis, mandingas, ebós e museologias,  dimensões do invisível que a arte convoca como ferramenta de cura e podemos utilizar como ferramenta para

A realização de performances, videoinstalações, rodas de conversa e residências artísticas como parte de uma ocupação cultural da Casa do Benin inscreve-se, portanto, numa estética da reparação, rememoração e  repatriação. Trata-se de dar forma ao que ficou em ruínas, de celebrar o que sobreviveu, de reativar a conexão entre o visível e o invisível, entre o que fomos e o que podemos vir a ser.

Assim, ao dizer que “arte dá trabalho”, este texto afirma que se trata de um trabalho vital: o trabalho de sustentar uma escuta, de bordar narrativas, de enfrentar o cansaço das estruturas, de abrir caminhos entre continentes, entre águas e entre histórias.

Costurar narrativas que vestem ancestral é o também costurar um futuro possível, onde a arte não apenas representa, mas reivindica, reencanta e transforma. Nosso trabalho árduo é fazê-lo aparecer ao mundo com nossa poética de cuidado com nossa identidade de Ocupação que reacende e repara o que precisamos lidar, sanar e cuidar enquanto ontologia, cosmologia e percepção viva de universo.

Reitero o vislumbrar da promoção de uma Ikupolítica, como reivindica wanderson do flor do nascimento, contra a necropolítica, conceito categorizado pelo intelectual Achille Mbembe para falar sobre políticas de morte, esquecimento, esvaziamento e genocídio de alguns grupos sociais, instaurando uma filosofia do cuidado à ancestralidade. Assegurar que as experiências e histórias de vida, por meio da arte não sejam esquecidas, mas sim preservadas para gerações futuras. Recuperar histórias que foram ignoradas ou suprimidas, oferecendo uma perspectiva mais humanizada e criativa para se discutir direitos civis e questões específicas enfrentadas pelas comunidades negras. Essa arte engajada dá trabalho, mas também dá corpo, dá cura e dá futuro.

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