ARTE E ANCESTRALIDADE
Kleyson Otun Elebogi
No dia 02 de dezembro de 2025, o Ilê Axipá irá completar 45 anos de existência. Nesta data, comemora-se também o aniversário de seu fundador, Deoscoredes Maximiliano dos Santos, mundialmente conhecido, seja por sua arte, seja por seu sacerdócio, como Mestre Didi.
O Ilê Axipá é um terreiro de culto aos ancestrais masculinos (os Egunguns) que chegou até o Brasil através de africanos e africanas escravizados iorubas por volta do século XIX. As primeiras casas de culto aos ancestrais dessa natureza de que se têm notícias começaram na Ilha de Itaparica, onde o próprio Mestre Didi também foi iniciado para, posteriormente, fundar em Salvador o Ilê Axipá, que reúne três famílias tradicionais de origem africana na Bahia, sob a égide de Babá Olokotun (o Olori Egun, qual seja, numa tradução livre: o Cabeça de todos os eguns).
Enquanto sacerdote do culto aos ancestrais, Mestre Didi se tornou Alapini (chefe máximo do culto aos ancestrais Egungun no Brasil). Não há dúvidas de que a fundação do Ilê Axipá, em 1980, é um marco na celebração e na preservação da herança afro-diaspórica no Brasil.
O Ilê Axipá nasce como um espaço cujas pretensões não se resumem a aspectos religiosos. Em verdade, trata-se formalmente de uma sociedade religiosa e cultural, como seu próprio nome de registro indica — Sociedade Religiosa e Cultural Ilê Axipá —, assim como compreendiam seu fundador e como compreendem os mantenedores da casa na atualidade. Isso também se revela em sua história, se considerarmos as mais variadas manifestações culturais criadas e fomentadas ali ao longo dessas décadas: oficinas de percussão, de culinária, de esculturas, aulas de iorubá, troça carnavalesca, produção de livros, fotografias e vídeos, entre outras.
Nesse sentido, o Ilê Axipá se consolidou como um espaço não somente religioso, mas também artístico e cultural, profundamente referenciado na ancestralidade africana.
A própria trajetória de Mestre Didi reflete a relevância que ele atribuía aos aspectos artístico-culturais. Publicou livro de artista (Por que Oxalá usa Ekonidé), livros literários (Contos Negros da Bahia, Contos Nagô), livros acadêmicos em parceria com a antropóloga Juana Elbein, o primeiro dicionário iorubá-português do Brasil (Iorubá tal qual se fala), além de realizar dezenas de exposições.
Toda essa produção brota da compreensão da cultura afrodiaspórica como uma estratégia de preservação da memória e de reinvenção do que vem a ser a negritude no Brasil. Todo o seu legado artístico-cultural tem como aporte os elementos da religiosidade afro-brasileira entendida — defendo aqui — enquanto uma “interpelação” (travessia) entre o físico e o espiritual, desafiando o contexto da arte contemporânea.
Passado, presente e futuro acontecem concomitantemente no Ilê Axipá por meio de práticas culturais e artísticas que subsistem e se projetam através de danças, cantigas, rituais, confecção de objetos e dos próprios corpos materiais e imateriais que ali habitam. A tradição, nesse contexto, não está ligada ao estático, mas ao dinamismo da vida e da morte, à atualidade do vivente no contexto social e religioso. Os ancestrais cultuados são tanto aqueles que nos antecederam quanto os que convivem conosco e nos aguardam até o momento em que nós próprios faremos parte desse panteão.
Inspirados pela trajetória de Mestre Didi e a partir desse solo que é o Ilê Axipá, surgem novos artistas profundamente vinculados a essa tradição e compreensão de mundo. Todos os artistas do Ilê Axipá são também sacerdotes ou oloyês (ocupantes de relevantes postos dentro da hierarquia religiosa da casa), e suas obras refletem esse contexto de criação e afirmação da arte negra em toda a sua profundidade e complexidade.
O coletivo de artistas apresentado a seguir reúne aqueles que têm se posicionado e dialogado com a dinâmica da arte contemporânea por meio de exposições e apresentações. Há outros que preferem reservar suas produções artísticas ao espaço do terreiro, e ainda aqueles que estão se iniciando e compreendendo o caminho que seguirão — os nossos “mais novos”. A imbricação entre arte e ancestralidade está presente em todos eles.
Antônio Oloxedê
Artista e sacerdote do culto de Baba Egun no Ilê Axipá. É Osi Alagba, uma das principais lideranças do terreiro. Mestre dos rituais a Ogum — orixá das lutas, dono das ferramentas e das inovações —, emprega em sua produção elementos do imagético iorubaiano na reinterpretação de ferramentas de tradição milenar no culto dos orixás e ancestrais da África Negra, mesclando ancestralidade ritual, tradição e contemporaneidade.
Labi – Wellington Mendes
Artista-sacerdote, Wellington Mendes, ou Labi, tem sua trajetória marcada pela convivência com as matriarcas e os sacerdotes do terreiro Ilê Axé Apô Afonjá, no qual é Ogã. Foi iniciado também no culto dos Egunguns, onde ocupa o cargo de Ojixé Alapini (secretário espiritual do Alapini). Fez parte do núcleo de crianças e jovens da comunidade Obá Biyi, liderada por Mestre Didi. Ojé é filho de Ogum e carrega a tradição da forja, elaborando ferramentas de orixás e esculturas diversas.
Maxodi
Jurandy Sobrinho, ou Maxodi, foi iniciado no culto dos orixás e Egunguns ainda criança. Em 1991 iniciou-se como sacerdote do culto dos ancestrais Egungun no Ilê Axipá e, em 1996, foi titulado no Ilê Axé Opô Afonjá como Ogã de Oyá. Ao longo dessas décadas, vivenciou e foi forjado na cultura e na arte afro-brasileira, participando diretamente da criação e construção da artesania de figurinos, cenários e adereços de diversas manifestações culturais e artísticas.
Petinho
Peterson Freitas, ou Petinho, é artista-sacerdote Ojubale. Trabalha com esculturas em palha, madeira, argila e concreto. Oriundo do núcleo da juventude Axipá, participou de inúmeros projetos desenvolvidos pela Sociedade Religiosa do Ilê Axé Opô Afonjá e pela Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil (Secneb), onde ingressou como assistente administrativo e participou ativamente das ações e projetos da entidade até 2007.
Kleyson Otun Elebogi
Otun Elebogi n’Ilê Axipá é um título antigo no terreiro, vinculado àqueles que ajudaram em sua fundação. “Elebogi” significa “adorador de árvores”, aquele que cultua a ancestralidade. Seu fazer artístico envolve multimeios: videoarte, livro de artista, fotografia e esculturas compostas por materiais diversos. Além de artista, é pesquisador e professor de artes visuais na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Foi iniciado na confecção de objetos rituais pelo sacerdote-artista Antônio Oloxedê.
Ojé Laran
André Luís Miguel Brasil Sant’Anna é filho do escritor e sacerdote José Sant’Anna, autor do livro Terreiros Egungun – Um Culto Ancestral Afro-Brasileiro. É artista-sacerdote Otun Laran n’Ilê Axipá, onde sua família tradicional de matriz africana cultua os ancestrais. Integra a Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá — ou Terreiro Ilê Axé Asipá —, localizada em Piatã, Salvador (BA), fundada em 1980 por Mestre Didi Axipá, supremo sacerdote do Culto aos Egunguns, da qual foi presidente.
Ojé Oluxó
Matheus dos Santos é Ojé Oluxó, sacerdote e artista. Além de alabê, integra a Troça Carnavalesca Pai Burokô, afoxé criado por Mestre Didi. Destaca-se pelas performances desenvolvidas nesse afoxé, que envolvem fotoperformance, cantigas, toques percussivos e dança.
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